Londrina - Pode começar com uma dor na perna, um formigamento no braço, perda de força nas mãos ou mesmo visão dupla. Sintomas que aparentemente não se relacionam entre si, mas que podem esconder um diagnóstico de esclerose múltipla. A condição é um mal crônico ainda sem cura, que ataca o sistema nervoso central de jovens adultos, principalmente entre os 20 e os 50 anos. Segundo o neurologista Damácio Ramon Kaimen Maciel, responsável pelo Centro de Referência de Tratamento da Esclerose Múltipla do Hospital de Clínicas (HC) de Londrina, é fundamental que o paciente receba diagnóstico o mais cedo possível. "Para que isso aconteça, é fundamental informar a população."
O neurologista explica que, atualmente, 340 pacientes no Norte do Estado e de São Paulo estão em tratamento para esclerose múltipla no HC. "Trabalhamos há dez anos no tratamento da doença, por isso somos referência nacional", explica. O último levantamento feito pela antiga Associação Paranaense de Esclerose Múltipla (Aparem) estima que cerca de 2,5 mil pessoas eram portadoras da doença no Estado em 2011.
Kaimen salienta que, no aparecimento de sintomas neurológicos como os já citados, é necessário consultar um especialista. "Um dos mais importantes exames para o diagnóstico é a ressonância magnética." O médico reforça que quanto mais cedo for feito o diagnóstico, mais rápido o tratamento é iniciado e mais qualidade de vida o paciente terá, além de retardar o aparecimento de novos sintomas. "Podemos afirmar que, hoje, 80% dos pacientes conseguem controlar muito bem a esclerose múltipla."

Diagnóstico tardio
Aos 20 anos, Olga Maria Neves era secretária executiva de uma empresa importante, ativa, pensando em constituir família, quando teve o primeiro sintoma da doença, uma neurite óptica - inflamação do nervo óptico, que causa perda súbita da visão e dor ao movimentar o globo ocular. "Foi muito estranho ter aquilo, mas fui ao oftalmologista e tudo voltou ao normal, então segui minha vida", recorda. Ela teve outros vários sintomas, como formigamento, infecções urinárias frequentes e perda gradual da força muscular e, então, aos 32 anos, teve a primeira crise. "Tive paralisia de todo o lado esquerdo do corpo, do seio para baixo. Afetou também órgãos internos."
Em busca de uma resposta, ela procurou diversos especialistas, até que um deles suspeitou de esclerose múltipla. "Na minha época era muito difícil, o pessoal confundia muito com derrame." Dez anos depois dos primeiros sintomas, ela recebeu o diagnóstico. "Quando você recebe a notícia, abre um buraco no chão. Você pensa, porque eu? É bem complicado no começo. Toda sua família fica doente com você." Com a terapia, uso de remédios e fisioterapia, ela melhorou muito, mas há alguns anos escolheu parar de tomar remédio por conta dos efeitos colaterais. "Tem dia que eu estou muito bem, tem dias que estou muito ruim, mas minha cabeça é muito boa, então não me deixo abater."
Olga, hoje com 49 anos, há dois não tem crise, mas admite que a doença tem se agravado. "Fiquei dois anos na cadeira de rodas, totalmente dependente aos 44 anos, foi muito difícil de encarar. Fui afastada do meu emprego, e depois de dois anos fui aposentada por invalidez." Para continuar, de certa forma, com a vida ativa que tinha, ela assumiu a presidência da Associação Paranaense de Esclerose Múltipla (Aparem), que finalizou os trabalhos há três anos por falta de participação e apoio governamental. "Não tínhamos verbas, nem participações. É uma pena. Mas mesmo assim eu continuo ajudando os pacientes que recém receberam diagnóstico, conversando, contando minha história. Isso ajuda muito."

mockup