Escavação revela ossadas de cemitério
Vânia Moreira
Enviada a Cruzeiro do Oeste
A prefeitura de Cruzeiro do Oeste (29 quilômetros a leste de Umuarama) retirou terra de um antigo cemitério para tapar buracos das ruas do distrito de São Silvestre, sem remover as ossadas humanas que estavam no local. Parte dos ossos que os funcionários do município encontraram quando escavavam a área teriam sido jogados no lixão ao lado do cemitério. Vários moradores contam que encontraram ossos nas ruas aterradas, mas ninguém quer se identificar temendo represálias da prefeitura. Segundo moradores, até crânios haviam sido deixados expostos no lixão. Ninguém soube informar o que foi feito com as ossadas desenterradas no local. A Folha encontrou no lixão um osso que parece ser um fêmur (osso da coxa, o maior do corpo humano).
O cemitério de São Silvestre, um distrito com 1,4 mil habitantes a 30 quilômetros de Cruzeiro do Oeste, está desativado há quase 20 anos. Quando o cartório de registro civil fechou, os mortos passaram a ser enterrados em Nova Olímpia, cidade vizinha, distante apenas sete quilômetros de São Silvestre. Apenas um jazigo antigo de alvenaria, uma cova com flores naturais e cruz de madeira e alguns entulhos lembram que a área já foi um cemitério. O terreno está sendo cultivado com mandioca e feijão.
A maioria das pessoas era sepultada em covas rasas e quem tem parentes ali não sabe dizer o local exato onde foram enterrados. É o caso do aposentado Laurindo Afonso, 68 anos. A mãe dele, Romualda Afonso Andrade, morreu em 1970 e está enterrada no antigo cemitério. Se eu soubesse o lugar exato, recolhia os ossos e levava para Nova Olímpia, disse. Funcionário da prefeitura, Ulisses Cordeiro dos Santos, 55 anos, tem uma tia enterrada no cemitério. Ela morreu em 66, só lembro que chamavam ela de Maria Cutia, mas não faço a menor idéia de onde estejam os restos mortais, contou.
O trabalho de aterramento das ruas foi feito há 15 dias. Muitos moradores ficaram chocados com o que classificaram de desrespeito aos mortos, mas ninguém procurou a prefeitura para reclamar. Algumas mães proibiram os filhos de brincar nas ruas aterradas com terra do cemitério temendo que contraiam alguma doença. A maioria dos moradores não faz questão que o cemitério seja preservado, mas acha que as ossadas deveriam ser removidas antes de se usar o terreno para qualquer outro fim. Ninguém soube informar quantas pessoas estão sepultadas no local. O cemitério existe desde que o distrito foi fundado em meados dos anos 50. Apenas duas famílias teriam transferido os restos mortais de parentes para outros cemitérios.
O prefeito de Cruzeiro do Oeste, Antônio Mazzei (PFL), disse que não tinha conhecimento da existência de um cemitério em São Silvestre. Eu determinei reparos nas ruas do distrito que estavam esburacadas, mas são os encarregados do departamento que executam o serviço e decidem detalhes como onde recolher terra. Não tenho como acompanhar todos os detalhes e preciso confiar que a minha equipe está trabalhando corretamente, justificou. Mazzei informou que vai apurar os fatos e punir os responsáveis.Moradores de distrito rural ficaram assustados depois que obras da prefeitura removeram ossos de cemitério abandonado
RESTOS MORTAISO morador Ulisses Cordeiro dos Santos ao lado do único túmulo de alvenaria que restou no local, e segurando ossos (um deles pode ser um fêmur) que a própria reportagem encontrou no lixo acumulado perto do antigo cemitério





