Sem chuvas para amenizar - e encobrir - a poluição de rios, pelo menos quatro nascentes e córregos em Londrina e na vizinha Cambé revelam um grande volume de fezes, sujeira e intenso mau cheiro. Para o ambientalista e assessor de recursos hídricos da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Sema), João Batista de Souza, que guiou a reportagem da FOLHA pelos pontos mais críticos, o problema é cíclico e expõe deficiências no trabalho da Sanepar e da própria prefeitura.
Os registros foram feitos na tarde da última segunda-feira. No Córrego Bom Retiro, que corta o Centro Social Urbano (Área Central de Londrina), os frequentadores da área de lazer se deparavam com águas cobertas de fezes. Ignorando o odor desagradável e os riscos à saúde, crianças nadavam no local no fim de semana, segundo Batista. ''Quando a estiagem vem associada ao calor, as crianças ficam mais expostas. E é justamente quando a vazão dos rios diminui que a concentração de poluentes se acentua mais'', aponta.
O assessor acredita que a origem da contaminação no Bom Retiro seja uma infiltração da rede de esgoto e credita o problema à falta de manutenção e monitoramento por parte da Sanepar. ''Eles esperam a gente ligar denunciando, vêm limpar o rio, mas depois o problema volta. Não há efetividade na solução. Precisaria ter mais gente monitorando os vários pontos da rede'', sustenta.
Na nascente do Córrego Cabrinha, que forma o lago de mesmo nome na Zona Norte de Londrina, a poluição se repetiu. Do tubo dissipador de águas - pelo qual só deveriam escorrer as pluviais - saía um líquido sujo. Em determinado ponto, a água apresentava aspecto esverdeado e estava cheia de bolhas. ''É resultado de despejos e lavagens inadequadas, com óleos e graxos vindos de lava-rápidos, por exemplo'', destaca Batista.
A cerca de 100 metros dali, no Lago Cabrinha, jovens combatiam o calor nadando com auxílio de bóias improvisadas com material reciclável. Um dos frequentadores, Wesley Bruno Correia Barbosa, 19 anos, declarou não se preocupar com a qualidade da água. ''Perguntei a um técnico que estava por aqui e ele informou que (a qualidade) estava igual à do Igapó. Como sempre nadei no Igapó e nunca tive nenhum problema, vim sem medo'', comentou.
Embora seja funcionário da Sema, Batista reconhece, em tom de cobrança, que a prefeitura também não está cumprindo a sua parte. ''Cria-se o lago, e com ele uma nova demanda, mas não se fiscaliza a qualidade da água. Também falta educação ambiental, que é algo que efetivamente contribui na solução do problema'', afirma.
Na rodovia BR-369, a galeria que ''esconde'' a primeira nascente do Ribeirão Cambé, formadora do Lago Igapó, estava lotada de lixo. Em Cambé (13 km a oeste de Londrina), no perímetro urbano, a reportagem registrou um despejo de esgoto in natura no Córrego da Verdade. O cheiro era nauseante. Detalhe: o córrego é afluente do Ribeirão São Domingos, que por sua vez deságua no Ribeirão Cafezal - manancial de abastecimento de grande parte da população de Londrina e região.

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