Escalada da violência em Londrina imita modelo carioca, diz socióloga
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de outubro de 2002
Renê Muller<br> Reportagem Local 
Quem fala em segurança pública em Londrina, hoje, cai sempre em uma angustiante constatação: faltam menos de três meses para o fim do ano e já morreram 105 pessoas. A média é de uma morte a cada dois dias e meio. Respeitado tal ritmo, serão 146 até o final do ano. A cidade tem tudo para ultrapassar seu recorde de óbitos da violência. Ocasionados principalmente pela mortal teia de relações do tráfico de drogas.
A maior parte das vítimas é jovem. Apenas 18 delas tinham mais de 30 anos de idade. Outras trinta ainda nem haviam chegado aos 20. Quase todas envolvidas com consumo e tráfico de drogas, acredita João Luiz Clevè Machado, juiz da 1 Vara Criminal de Londrina. ''Pelo menos 80% dos crimes praticados em 2002 têm por trás a droga'', afirma o juiz.
Muitos dos mortos trabalhariam como ''aviõezinhos'' do narcotráfico, responsáveis pelo comércio de pequenas quantidades de droga. Viciados, acabariam criando dívidas com os traficantes. E seriam executados, servindo como exemplos para aqueles que começam a criar dívidas com o consumo próprio.
Francisca Vergínio Soares, doutora em Sociologia e professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e Universidade Norte-Paranaense (Uninorte), destaca essa como uma das semelhanças entre a escalada de violência da cidade e do Rio de Janeiro, que foi iniciada nos anos 80. ''Aqui, o crime praticado há 15 anos tinha pouca relação com o tráfico de drogas. Hoje, é esse comércio que motiva os assassinatos e roubos na cidade'', destaca. A maior parte dos assaltos que ocorrem em Londrina seriam planejados e executados por jovens dependentes sobretudo para saldar dívidas do tóxico.
Francisca está iniciando um estudo sobre a evolução da violência local, que vai comparar números das décadas de 60, 70 e 80. Ela diz que, assim como aconteceu no Rio, os traficantes começam a tomar espaços do poder público. ''O tráfico já começa a interferir no funcionamento de escolas, por exemplo'', opina.
Jurandir Gonçalves André, delegado-adjunto da 10 Subdivisão Policial (SDP), calcula que o tráfico começou a alterar as estatíticas da violência urbana há cinco anos. ''Antes, o tóxico que a polícia combatia na cidade era a maconha. Houve uma inversão e hoje a cocaína está dominando o mercado'', revela. O delegado, contudo, reluta em afirmar que tal comércio é o motivo principal para o aumento dos índices de criminalidade. ''Com certeza, é causa presente em um percentual considerável dos delitos'', diz.
O perigo é agravado por motivos sociais e econômicos inerentes a centros maiores. O crescimento populacional desordenado e a falta de uma estrutura familiar equilibrada são aspectos que, na opinião do delegado, ajudam a piorar a situação. ''À polícia, contudo, não cabe estudar o que motiva o crime, e sim reprimí-lo'', considera.


