Desde que resolveu tocar os três alqueires de terra da família, Maria Aparecida Lara só teve prejuízos. Há três anos, a prefeitura abriu um buraco no meio da propriedade, em Guaravera, para instalar uma tubulação que iria canalizar a água da chuva. Passado todo esse tempo, o abandono da obra e a erosão contribuíram para que a valeta chegasse a mais de três metros de profundidade.
O sítio, antes cultivado com soja, hoje é só mato, ''ou melhor, guanxuma e mamona'', como descreveu a produtora. Segundo ela, a família gastou em calcário e semente para recuperar o solo, mas ''a chuva levou tudo''. ''A erosão faz com que toda água de chuva da cidade caia no nosso sítio. A prefeitura chegou a tapar o primeiro buraco, que tinha uns sete metros de profundidade, e fez também curva de nível, mas a erosão levou tudo.''
De acordo com Maria Aparecida, o pouco que sobrou da colheita de verão não deu para cobrir nem os gastos com o plantio. ''Preferimos não arriscar cultivar nada no inverno, esperando a vinda dos maquinários.''
Sem condições de plantar, a família já acumula dívidas de custeio da safra há dois anos. ''Não tenho maquinário nem verba para limpar o terreno'', avisou a produtora, que mora no sítio há mais de 40 anos.
Maria Aparecida contou que o pai dela, seu Pedro Vicente de Lara, arrendou nove alqueires de uma fazenda vizinha para criar algumas cabeças de gado. ''Todo dia ele monta no cavalo e vai para o sítio buscar o leite'', disse ela, contando que o pai tira, em média, 15 litros de leite diários, que auxiliam no sustento da casa. ''O dinheiro da aposentadoria complementa a renda, mas basicamente vivemos de arroz, feijão e ovo frito'', lamentou.
Em dezembro do ano passado, recordou, a prefeitura tentou iniciar a obra, levando a tubulação até o local. ''Na época eles disseram que tudo ficaria pronto até abril deste ano'', lembrou Maria Aparecida. Os tubos abandonados na rua e a valeta denunciam que a construção não só não começou como também não tem previsão para terminar.
''Não dá para prever o término da canalização porque o trabalho não depende só de nós'', rebateu o diretor de desenvolvimento rural da Secretaria da Agricultura (Seab) de Londrina, Osvaldo de Souza Campos Junior.
Segundo ele, antes de iniciar qualquer procedimento, a Secretaria precisa averbar o registro de servidão de passagem - o qual garante livre acesso dos maquinários da prefeitura na propriedade em caso de venda do sítio -, além da licença ambiental, que requer o compromisso da família em plantar mata ciliar na propriedade.
''O registro de servidão de passagem já foi protocolado junto ao setor de patrimônio da prefeitura, só precisamos de alguns documentos do seu Pedro para finalizar a documentação'', declarou Campos Junior, que recolheu a documentação necessária ontem com a família.
''Reconhecemos que a família está chateada, mas preferimos seguir os preceitos legais para não sofrer sanções ambientais posteriormente'', concluiu.

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