Era uma vez um contador de histórias
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de agosto de 1998
Anna Camanducaia 
Poucos pais ainda contam histórias para seus filhos. A psicóloga Edna Zolet acredita que, de cada 100 casais, apenas 10 tenham essa prática. Eles estão cada vez mais ocupados e não têm tempo para as crianças. Sem a atenção dos pais e o contato com as histórias, a psicóloga diz que as crianças perdem o hábito de ouvir, ficam mais desligadas e não desenvolvem a imaginação.
A também psicóloga Cleide Boz Maboni, 40 anos, admite que não conta história para os filhos Bruno, 5 anos, e Bernardo, 4 anos, com frequência. Às vezes, falo que vou contar e eles não querem, diz. Outras vezes, o Bernardo vem me pedir para contar, às 11h30. Daí eu não posso.
Segundo Cleide, Bruno parece que não tem muito tempo para ouvir. Quando preciso falar alguma coisa mais séria, aproveito a hora que ele vai deitar.
Mauro FrassonA bruxa boazinha, Rute Pulsider, brinca e canta o tempo todo, enquanto conta histórias no Bosque Alemão. Os contos dos irmãos Grimm são os preferidos, especialmente João e Maria.Cleide diz que a televisão acomoda a mãe. Bruno e Bernardo acordam todos os dias às 9h, vêem desenhos na televisão, fazem tarefas e depois brincam pelo resto da manhã. Cleide trabalha às segundas, terças e quintas, mas reserva as quartas e sextas para passear com os filhos. O marido Celso, 38 anos, trabalha como contador e desde o mês de julho, quando começou a fazer um curso à noite, está mais ausente. É boa a lembrança do avô contando história, diz Cleide. Não dou isso para os meus filhos e nem os avós deles. É outro momento.
A artesã e ex-professora de Educação Artística Denise Alberton Lima, 37 anos, lê para a filha Marina, 6 anos, todas as noites.Se eu tivesse outra formação, talvez fosse diferente.
Denise diz que a filha gosta de escutar histórias e que hoje já não se interessa mais pelas clássicas, como Branca de Neve. A leitura atual é História da Arte para Crianças. Sempre procuro texto de qualidade para ajudá-la a ser crítica, diz. É uma questão de despertar interesse na criança. Não é porque tem a televisão que ela não precisa ler. Marina também gosta de ver televisão. No domingo, não dorme antes do Sai de Baixo.
Denise optou por ser mãe full time, como ela mesma se define. Parou de trabalhar, quando Marina nasceu. Brinca e participa da vida da filha o tempo inteiro. Só quando ela vai à escola, é que Denise trabalha em seu ateliê.


