'Era um baita coração'
A produção da edição número 16.152 da Folha foi feita com profunda tristeza. Os colegas sabiam que haviam perdido bem mais que um profissional dedicado, generoso em sua sabedoria. Haviam perdido uma companhia agradável, com verve e humor fino, uma figura marcante, que arrancava aplausos quando trazia a garrafa térmica de café. Era um mestre com a humildade dos grandes. Grande parte dos cerca de 200 nomes que estavam no Livro de Presença do funeral sabia disso.
Horas depois de saber da morte do amigo, o colunista Oswaldo Militão resumiu: ''Estelio era um baita coração. Uma bela alma. Sempre foi equilibrado, conselheiro e amigo''. Ele lembrou de uma passagem que considera tocante: ''Ele sofreu muito com a doença da primeira mulher, Terezinha. Ela permaneceu três anos em coma na UTI e o Estelio repetia um gesto de amor maravilhoso. Ele sabia que a mulher era muito católica e que gostava de acompanhar a Ave Maria pelo rádio. Então, ele levava um rádio, e colocava para ela ouvir no leito do hospital a oração. Dizia que não se importava com a inconsciência dela. Ele apenas fazia o que ela faria''.
O fundador da Folha, João Milanez, disse que o ''amigo'' era um dos mais estudiosos jornalistas que já conheceu. ''Ouvi ele na Rádio Paiquerê, gostei muito e convidei para trabalhar na Folha. Ele era um jornalista muito ponderado, muito cuidadoso quando escrevia um editorial, que aliás orientava a opinião de muita gente. O Brasil perdeu um grande comunicador.''
No saguão da Câmara, onde o corpo foi velado até o final da tarde (sobre o tórax estava o inseparável boné), amigos lembravam de sua intensa vida comunitária. O advogado Waldomiro Carvalho Grade companheiro de Feldman no Movimento Familiar Cristão por mais de uma década ressaltou o ''grande cristão'' que existia por trás do jornalista combativo. ''Era um líder pelo exemplo, uma influência positiva para qualquer grupo''.
O advogado e colega de ginasial Ademar de Barros destacou a experiência do adolescente Estelio à frente da Tribuna Estudantil, órgão oficial dos estudantes do Colégio Estadual de Londrina (atual Vicente Rijo). ''Era um sucesso, um orgulho para todos os alunos.'' Barros foi colega também durante o serviço militar.
Raquel de Carvalho, presidente do Sindicato dos Jornalistas do Norte do Paraná, recordou que, além de vasta experiência na profissão, Feldman tinha sabedoria para distribuir seu conhecimento e ensinar os mais novos. ''Tive o privilégio de conviver com ele na redação. Foi um exemplo de profissional.''
O jornalista ocupa agora o jazigo 41 da quadra 14 do Parque das Oliveiras. Antes de receber o último aplauso e descer ao fundo da sepultura, um amigo da família fez a última reverência de corpo presente: leu o Salmo 23, um das últimas leituras do jornalista à esposa.





