Era da violência ativa auto-destruição
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de abril de 1997
Osmani Costa 
A agressividade e a violência sempre foram características inerentes ao ser humano, através do séculos e milênios da existência de nossa espécie. Hoje, em consequência do acelerado ritmo de mudanças tecnológicas e da segregação social imposta pelo sistema econômico vigente, elas se banalizaram, se sofisticaram e fazem parte do nosso cotidiano sem causar maiores constrangimentos.
E essa violência - hoje expressa de maneira individual ou coletiva em crimes fúteis por todo o País - tende a aumentar rapidamente por todas as camadas sociais, caso as autoridades não executem com urgência um sério programa de combate às causas. Esta é a avaliação de três professores da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que pesquisam o tema há anos.
O problema é que, pelas circunstâncias e características atuais, parece que estamos vivemos um verdadeiro projeto coletivo de morte, avalia a professora de Psicologia Simone Martin Oliani. Segundo ela, a sociedade contemporânea ativou muitos mecanismos de auto-destruição, entre eles o consumo de drogas, o suicídio, a subversão da ordem e as mais variadas formas de violência - aí incluídas as agressões com morte.
Na opinião da psicóloga, o projeto de destruição social está sendo construído nos últimos anos com base na falta de respeito, de afeto, de limites e de solidariedade social. Os hormônios que regulam o comportamento agressivo estão presentes tanto nos animais irracionais quanto nos homens. O Estado e a sociedade tentam controlá-los através de regras e limites. Em determinadas épocas conseguem alcançar este objetivo; em outras, não. Creio que estejamos vivendo esta segunda opção. Porque estamos numa época em que a cultura da morte foi transformada em mito.
Para Simone Oliani, a agressividade humana pode vir à tona em forma de violência como resposta ao medo, à insegurança, às frustrações diárias, em defesa da prole ou da propriedade ou em consequência das próprias disfunções hormonais. A violência depende muito do binômio amor e ódio. E há uma linha muito tênue que separa estes nossos dois sentidos. É em resposta a eles que nós vivemos o contraste entre a vida e a morte.
O professor de Sociologia - com pós-doutorado na França - João Batista Filho prefere analisar o fenômeno da violência contemporânea dentro do contexto vivido atualmente pelo Brasil e pelo mundo. Londrina não poderia ser uma ilha de tranquilidade, fora da globalização mundial da economia, da política, da comunicação e de todas as consequências boas e más que ela traz. Apesar de toda a industrialização, de todos os avanços tecnológicos, a qualidade de vida da maioria da população é muito ruim; é mesmo de discriminação e segregação social. A violência é uma resposta das pessoas ou do coletivo ao cotidiano de carências. É como uma tentativa de justiça, só que praticada pelo outro lado da população; o lado que está fora do poder, do governo, do conforto e dos privilégios, afirma.
Segundo ele, muitas vezes, nesta busca de justiça - que não vem através do Estado e dos governos - as pessoas, de maneira individual ou coletiva, acabam praticando atos considerados agressivos e violentos. É a chamada busca da justiça pelas próprias mãos. Ela pode não ser a correta, do ponto de vista legal, mas é a saída possível no momento dentro da ótica dos excluídos. Não estou falando deste bando de jovens que mataram um índio queimado em Brasília, que é uma forma esdrúxula da violência contemporânea proveniente do senso de impunidade comum entre as autoridades da capital federal. Mas tomemos o exemplo também recente de Ibiporã. Os policiais mataram um pastor. A população foi lá e quebrou e queimou a Delegacia. Porque as pessoas devem ter pensado assim: temos aqui um bem público que não está servindo à população, mas sim a uma minoria privilegiada, analisa.
Na avaliação do sociólogo, a violência que hoje aflora de uma maneira mais intempestiva por todo o País é consequência direta das desigualdades e injustiças sociais impostas à maioria da população ao longo dos séculos. São milhões e milhões de famílias sobrevivendo abaixo da linha de miséria. São cerca de 36 milhões de pessoas recebendo mensalmente entre um e dois salários mínimos. Que aspirações de vida digna podem ter estes subcidadãos?
João Batista Filho considera que, como o Estado abandonou a responsabilidade pelas necessidades sociais da população - Com este discurso falacioso do novo, do privatizante, do mercado -, a maioria das pessoas se sente abandonadas, acuadas, isoladas em suas próprias cidades. A cidade deixou de ser um espaço de cidadania, de encontro, de convivência. Passou a ser um amontoado de favelas, cortiços e guetos, onde as pessoas se sentem apenas de passagem. Como um cão encurralado, a população carente se lança à contraviolência e à vingança. É o momento de perguntar: onde está a maior violência, nas causas ou nas consequências?
O professor de Filosofia - com mestrado em ética pela PUC de Porto Alegre (RS) - Gilvan Luiz Hansen lembra que a violência é um fenômeno que tem acompanhado a humanidade através da sua história, mas que ela nunca esteve tão sofisticada e requintada como hoje. Isto se deve principalmente aos desenvolvimentos tecnológicos e às mudanças sociais e de comportamento ocorridos neste século. A globalização trouxe alguns benefícios, mas também tem seus preços. Um deles é o aumento e sofisticação da violência.
Hansen enumera algumas das principais causas da violência. 1) A crescente urbanização - grandes cidades - sem qualidade de vida para a maioria da população. 2) A perda de elementos sociais de reconhecimento para a cidadania, entre os quais o mais importante deixou de ser o trabalho. 3) A perda dos valores tradicionais de agregação, como a família, a escola e a religião. 4) A transformação da violência em produto de consumo, através de brinquedos, cinema, televisão e a mídia em geral. 5) O descrédito em relação às instituições públicas - congresso, polícia, prefeitura etc. - e autoridades eleitas ou não. 6) Descompromisso com a história e com o futuro - Tudo é muito ligado ao hoje, passa rapidamente e logo acaba, pensam as pessoas. 7) Depreciação do caráter social da cultura e do diálogo - As pessoas não sabem mais conversar, se fecham nas suas casas e nas linhas da Internet, se isolando do mundo próximo.
Além de analisar de maneira parecida as causas da violência, os três professores da UEL concordam também que ela só diminuirá com base em profundas mudanças sociais, que busquem o fim das desigualdades, o fim da impunidade, o fim da corrupção oficial, o restabelecimento de limites e de condições dignas de vida para todos. A psicóloga Simone Oliani faz uma reflexão: A saída é difícil, é um enorme desafio para todos nós e para o nosso País. O caminho será encontrado através de novos valores, porque os atuais estão falidos, podres, não deram certo. Temos que construir uma nova sociedade, onde os valores da vida predominem sobre os da morte, ao contrário do que acontece atualmente. Isto é utópico? É utópico. Mas precisamos começar a transformar esta necessidade em realidade. E o início só pode ser através de cada família.


