Epopeia da disseminação do zebu completa 50 anos
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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Widson Schwartz<br> Especial para a FOLHA 
Há exatamente 50 anos, Celso Garcia Cid festejava o Natal mais completo para si até então, no palacete da Avenida Higienópolis, em Londrina, chegando ao aparente exagero de tomar duas garrafas de champanhe. ''Meu sonho, o de todos meus filhos, familiares e amigos está transformado em realidade'', escreveu naquela noite. ''É véspera de Natal, não é necessário contar mais nada.''
As anotações em seu diário, semelhantes à ficção de contos natalinos com final feliz, correspondem ao fato mais relevante no dia 24 de dezembro de 1960: às cinco horas adentrara a Fazenda Cachoeira o primeiro dos caminhões procedentes de Paranaguá transportando preciosa carga genética zebuína selecionada na Índia. E às 18 horas desembarcaram os animais do último caminhão.
Em perspectiva uma revolução genética que teria a participação de outros pecuaristas, aos quais a importação seria aberta graças à comprovação da viabilidade do zebu na Fazenda Cachoeira, a partir dos 103 gir, guzerá e nelore introduzidos naquela véspera de Natal.
Celso havia superado obstáculos que pareciam intransponíveis, a começar pela ferrenha oposição da burocracia, incrustada no governo brasileiro, proibindo a importação de zebuínos a fim de preservar o monopólio dos criadores em Uberaba (MG), ainda que oficialmente a alegação fosse o risco de gado empesteado. Até uma ''operação de guerra'', envolvendo a Marinha, ameaçou o desembarque da boiada no Brasil; se o impedissem, inútil seria a epopeia de Ildefonso dos Santos e Neco Garcia. Num pequeno navio de bandeira alemã, eles levaram os bois da Índia para a Guiana francesa, de onde prosseguiram até Paranaguá em outra embarcação.
Neco é o único remanescente da aventura. Diz que que não calculou distâncias, embora o itinerário lhe seja inesquecível. ''O Mar Vermelho fica realmente vermelho ao pôr do sol'' e no Golfo de Suez ainda avistaram sinais da guerra de 1956, quando o Egito nacionalizou o canal e impediu a passagem de navios israelenses. Tropas francesas e britânicas deram apoio a Israel, que invadiu e ocupou a península do Sinai.
Supõe-se, por cálculos aproximados no atlas, que tenham navegado entre 10 mil e 12 mil milhas (1 milha marítima = 1.852 metros), desde Madras, no Golfo de Bengala, de onde partiram em janeiro de 1960. Após uma escala em Aden (Iêmen), seguiram pelo Mar Vermelho e o Mediterrâneo e ficaram ''isolados do mundo'' até aportar em Las Palmas, no Atlântico, de onde prosseguiriam até Caiena. Tinham navegado continuamente, por vezes em mares bravios, debaixo de tempestades que estremeciam a embarcação, jogando os animais ao chão, já desarranjados fisiologicamente, até aportar em Las Palmas.


