EPIDEMIA - Aids: realidade no meio rural
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quarta-feira, 01 de dezembro de 2004
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
A vida pacata e a tranquilidade do campo estão mascarando um problema que já chegou a essas comunidades: sem ter sido anunciada, a Aids é hoje uma realidade no meio rural. E o pior é que a principal forma de prevenção, o uso do preservativo, ainda é visto com reservas nestas localidades. O Paraná não dispõe de dados estatísticos específicos sobre essa questão, mas em Londrina os organismos oficiais de saúde pública já se movimentam para encarar mais esse desafio e tentar conter o avanço da epidemia na zona rural.
No município, o primeiro caso de Aids no meio rural foi notificado em 1992 e, de lá para cá, as notificações aumentaram num ritmo acelerado. Nestes últimos 12 anos, já foram contabilizados 11 casos da doença para uma população rural de cerca de 14 mil habitantes. No Paraná, a Secretaria Estadual de Saúde desconhece o número de casos notificados de Aids na zona rural. O descuido pode custar caro já que, conforme o censo demográfico de 2000, são mais de 1,7 milhão de pessoas vivendo fora das cidades. Isso representa quase 20% da população total do Estado, que é de 7,786 milhões segundo a mesma fonte.
A questão é preocupante porque cada vez mais o meio rural estreita seus vínculos com o meio urbano. Mas se por um lado o progresso ampliou o acesso à informação sobre a doença, por outro lado encurtou o caminho para o trânsito do vírus HIV e das demais doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). É bom lembrar também que essas transformações, embora provoquem mudanças de comportamento, ainda não conseguiram vencer barreiras culturais importantes, como a resistência do homem do campo em usar preservativo nas relações sexuais.
Por ocasião do Dia Internacional de Luta Contra a Aids, a Folha visitou os postos de saúde da Usina Três Bocas e do Distrito de Maravilha, ambos na Zona Sul, e descobriu que o uso de preservativo está restrito a basicamente um grupo: o dos casados. O auxiliar de enfermagem do posto da Usina Três Boca, Valmir Francisco dos Santos, disse que a dificuldade está em convencer os mais jovens sobre a importância do uso da camisinha. ''É raro os jovens solteiros virem buscar preservativos'', revelou.
O posto atende cerca de 960 famílias e a população jovem, com idades entre 15 e 39 anos, soma cerca de 400 pessoas. Como as famílias ainda têm a saúde sexual como um tema tabu, Santos avalia que o ideal seria fazer um trabalho de conscientização dos pais, antes de abordar os mais novos. ''Existe essa resistência cultural'', admite o auxiliar.
Na unidade de saúde de Maravilha a situação é semelhante: dos cerca de 200 preservativos distribuídos por mês, 90% são para casais. O posto atende 343 famílias residentes no núcleo da comunidade e outras 190 que vivem em sítios e fazendas. ''A procura por preservativo é bem baixa. Os solteiros são pouquíssimos. A maioria não gosta e sempre prefere o anticoncepcional ou tem vergonha de vir aqui pegar'', comenta a auxiliar de enfermagem Márcia Cristina Batista de Oliveira.
Ela também aponta que, para atuar na prevenção da Aids e das DSTs nas comunidades rurais, é preciso antes convencer os pais. ''Na cidade é tudo mais liberal. Aqui é ainda aquele negócio de tempo antigo. Os pais não falam sobre isso, mas poderiam estar conversando com os filhos e passando orientação'', completa.
Em comparação com um posto de saúde urbano, as diferenças são evidentes. Na unidade do Parque Industrial (Zona Sul), que assiste seis mil habitantes, a enfermeira Rosa Massae Suwa informou que da média de 580 preservativos distribuídos todo mês, a maior parte vai para as mãos de jovens entre 20 e 49 anos.


