Com os pés descalços na lama e as roupas encharcadas, a aposentada Clara Contador Pinheiro, 76 anos, acompanhava atônita o trabalho do Corpo de Bombeiros em sua casa e na da nora, destruídas parcialmente no início da tarde de ontem por um turbilhão de água que arrastou tudo que encontrou pela frente em três quarteirões do Jardim União da Vitória I (Zona Sul de Londrina). A enxurrada provocou prejuízos em pelo menos 15 imóveis do bairro.
Uma das primeiras moradoras a se fixarem no bairro, dona Clara foi buscar forças na experiência obtida com a idade para ajudar na remoção dos escombros e tentar salvar algum pertence em meio a lama. ''O importante é que a gente continua vivo'', dizia ela à nora, Maria Aparecida de Oliveira Pinheiro, inconsolável diante dos estragos provocados no quarto onde dormia. A parede veio abaixo com a força da lama, lixo e entulhos. ''São 18 anos de vida aqui. Ajudei colocar tijolo por tijolo e perder tudo assim é muito triste'', lamentou. Por pouco a filha adolescente, única pessoa que estava em casa, não foi soterrada. As duas casas da família, localizadas na Rua dos Pastores, 299, foram interditadas pelos bombeiros.
Na mesma rua, o motorista Alexandro Domingues Pereira não perdeu a casa e tudo que tinha porque a enxurrada encontrou um muro pela frente. O lamaçal foi desviado pela lateral de sua casa mas mesmo assim o imóvel foi inundado e muitos pertences foram perdidos. Ele criticou que a galeria existente na rua não comporta o volume de água e precisaria ser ampliada.
Na rua de cima, dos Sapateiros, a doméstica Nicéia da Silva Carvalho também estava arrasada. Sua casa foi invadida pela lama que, além de destruir praticamente todos os móveis e eletrodomésticos, abriu um buraco em um dos quartos. ''De repente tudo explodiu e só deu tempo de sair correndo no meio da chuva'', contou assustada uma das filhas da doméstica, Elaine da Silva. Nicéia reclamou que por diversas vezes ligou para a Prefeitura pedindo que o bueiro em frente à sua casa fosse limpo e desentupido mas o serviço, segundo ela, não foi feito.
O caos gerado pela intensa chuva que atingiu o União da Vitória teve início com o entupimento de um bueiro na Rua dos Cozinheiros, em frente ao número 898. Sem ter como escoar para a galeria, o rio de lama desceu morro abaixo e invadiu pela segunda vez em menos de uma semana a casa da doméstica Maria Aparecida da Silva, que já recebeu até elogios do Corpo de Bombeiros pelo cuidado que sempre teve com o bueiro. ''Foi tudo muito rápido. Só deu tempo de salvar um pouco de uma compra que eu tinha feito'', afirmou a moradora. Outros três imóveis vizinhos também foram alagados.
E não foi só na Zona Sul que a chuva causou transtornos. Na rotatória da Rodovia Carlos João Strass, na Zona Norte, quatro motociclistas sofreram quedas por causa do barro que desceu do canteiro de duplicação da via para o meio do asfalto. No Jardim Bancários (Zona Oeste), também houve registro de alagamento.

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