Pode parecer apenas mais um artifício para conseguir o que quer, mas se a reclamação de dor de cabeça for frequente, os pais devem levar a sério. Pesquisa recente realizada pelo Instituto Glia de Cognição e Desenvolvimento, de Ribeirão Preto (SP), com 5.671 crianças de 5 a 12 anos de 87 cidades de 18 Estados do País, mostra que 7,9% nesta faixa etária sofrem de enxaqueca, o representa uma estimativa de 2,1 milhões de crianças.
O levantamento comprova que crianças com enxaqueca apresentam risco 1,6 vez maior de baixo desempenho escolar em comparação com crianças sem cefaleia, e um maior risco de ausência escolar. ''Estimamos que cerca de pelo menos três milhões de dias de aulas são perdidos no Brasil ao ano em decorrência de enxaqueca'', afirma o neurologista da infância e adolescência Marco Antônio Arruda, autor do estudo. A pesquisa comprova que crianças com enxaqueca têm um risco 5,8 vezes maior de apresentar sintomas depressivos e ansiosos e 2,8 vezes de dificuldade de atenção.
O neuropediatra Efigênio Silvio de Castro Junior, de Londrina, explica que o prejuízo depende do grau de incidência da dor. Ele elenca que entre os malefícios da enxaqueca - que podem interferir na qualidade de vida da pessoa - estão distúrbios cognitivos, de sono, psiquiátrico, ansiedade e depressão. Segundo ele, a enxaqueca é mais frequente nos meninos até os 10 anos de idade, enquanto nas meninas é mais comum a partir desta faixa etária.
De acordo com o estudo, detalhadamente projetado para retratar a população infantil brasileira e o maior já realizado no País sobre o tema, apenas 18% das crianças nunca tinham se queixado de dor de cabeça e 4% apresentavam a dor 10 ou mais dias por mês.
Conforme Arruda, às vezes, é comum os pais acharem que a dor de cabeça é manha e não darem muita atenção às reclamações. Outras vezes, eles ficam apavorados pensando ser uma causa grave, como um tumor cerebral. ''Mas felizmente, causas graves como aneurismas e tumor cerebral são responsáveis por menos de 1% das dores de cabeça em crianças'', completa.
Os principais sintomas de enxaqueca são dor de cabeça que lateja, pulsa e piora com o esforço físico de abaixar-se ou pular. Ela pode vir acompanhada de náuseas, eventualmente vômitos, maior sensibilidade à luz (fotofobia), ao barulho (fonofobia) e a odores (osmofobia). Também acontece, muitas vezes, de a criança sentir dor nas pernas e abdominal quando está em crise. Castro Junior explica que em crianças a dor pode ser uni ou bilateral, geralmente na região frontal da cabeça, e que já é caracterizada como enxaqueca caso persista por 30 minutos ou uma hora.
Tratamentos
Ambos neurologistas esclarecem que existem dois tipos de tratamentos, o da crise e o preventivo, que podem ser divididos em medicamentoso e não medicamentoso. ''Para o tratamento da crise é muito importante colocar a criança em um lugar bem ventilado, escuro e silencioso. Na grande maioria das vezes isso resolve, sobretudo se a criança dorme'', diz Arruda. Se não resolver e a criança tiver vômitos, são administrados anti-inflamatórios e antieméticos (utilizados para alívio de sintomas de enjoo, náuseas e vômitos).
Já o tratamento preventivo pode ser feito com técnicas de relaxamento e autocontrole aliadas a medicamentos não analgésicos que corrigem a química cerebral da enxaqueca que provoca dor. ''Existem hoje pelo menos 15 medicamentos preventivos eficazes e seguros para esse tratamento. A eficácia na criança bate os 80%'', garante o neurologista do Instituto. ''Eliminar situações de estresse e tratar a higiene do sono, evitando barulho e televisão no quarto, por exemplo, estão entre as opções do tratamento não medicamentoso'', completa Castro Junior.

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