Enxadrista dribla a cegueira e conquista campeonato nacional
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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Michelle Aligleri<br>Reportagem Local 
Xeque-mate. Esta é a posição de André Rezende Marques perante a cegueira que o acompanha desde a adolescência. Em vez de se conformar com as limitações que a deficiência lhe impõe, o analista de suporte mostra que é possível superar as próprias expectativas e tornar-se melhor a cada dia. Este mês ele foi vencedor do Campeonato Brasileiro de Xadrez para Cegos, uma das várias conquistas alcançadas nos últimos anos.
O tato, a percepção espacial e a sensibilidade são fundamentais para que o cego jogue uma partida com sucesso. Para André, as casas pretas e brancas não são mistério, ele conheceu o esporte ainda criança, disputando as partidas com o pai e o irmão. O talento foi lapidado no Colégio Estadual Olavo Bilac, em Ibiporã (Norte), onde nasceu e estudou. ''A escola incentivava a prática do xadrez entre os alunos'', disse. Na época, André já estava perdendo a visão, consequência de uma doença genética que anos mais tarde o deixou cego.
''Quando saí do colégio fiquei muito tempo sem jogar. Há três anos redescobri o esporte e voltei a praticar com amigos em São Paulo, onde moro atualmente'', explicou. Segundo André, o retorno se deve ao trabalho do amigo e programador Luiz Eduardo Porto, que desenvolveu um jogo no computador adaptado para cegos. ''Ele me chamou para testar, acabei ajudando a montar o manual'', disse.
No mesmo ano, André decidiu participar de um curso de xadrez para cegos iniciantes no Centro de Apoio ao Deficiente Visual, em São Paulo, instituição que frequenta. ''Conheci os tabuleiros adaptados e fiz apenas três aulas, o professor não pôde prosseguir com o curso, então assumi a turma e dei continuidade. Até agora não parei com as aulas, a primeira turma tinha quatro alunos, hoje são 15'', descreveu.
Para o deficiente visual o xadrez é mais do que um jogo de raciocínio. ''É também um evento social, que trabalha noção espacial e respeito às regras. Estas são características fundamentais para quem se locomove sem enxergar'', falou.
A lição que André tira disso tudo é motivacional. ''Vale à pena ter uma atividade além da vida cotidiana, as paixões trazem conquistas. Fazer uma coisa por amor traz bons frutos. No meu caso, conquistar títulos é bom, mas é muito gratificante o que alcançamos além das competições'', declarou.
Toda a dedicação ao xadrez tem um preço, que em geral é pago pela esposa dele, Ana Lucia Gomes Gouveia. ''Ela abre mão de muitas coisas quando preciso estudar as jogadas, mas o apoio dela é fundamental'', acrescentou.
Para a mãe de André, Lucinéia Aparecida de Rezende, a grande conquista do filho foi a superação das dificuldades. ''Quando adolescente ele viveu situações difíceis por causa da deficiência''. Segundo ela, o compromisso assumido com o xadrez permitiu que ele superasse a si próprio.
Serviço - Associação Brasileira de Xadrez para Deficientes Visuais: www.abxdv.org.br


