O senador Roberto Requião está com 57 anos, casado com Maristela e é pai de Maurício e Roberta. Deputado estadual, prefeito de Curitiba, secretário de Desenvolvimento Urbano, governador do Estado. Hoje senador da República, Requião é formado em Direito e Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná.
Antes da homologação da candidatura, Requião deu entrevista à Folha. Veja os principais trechos abaixo:
Folha - Como o sr. resume os governos Fernando Henrique e Jaime Lerner?
Requião - São dois governos que se perderam na farsa da globalização. O que é globalização? (O economista) John Galbraith diz que é uma palavra inventada por americanos para invadir mercados. Eles se perderam nesta história de globalização e modernização. Ontem (quinta-feira) o Joelmir Beting, citava um autor americano. A fábrica do futuro terá dois empregados. Um homem e um cachorro. O homem para alimentar o cachorro e o cachorro para impedir que o homem chegue perto das máquinas. Ora, não foi isto que me ensinou na juventude a ‘‘Rerum Novarum’’, a Encíclica que mudou o pensamento social, que demonstrava à sociedade a função social da Igreja.
Kraw Penas/Folha de LondrinaPedágioRequião: ‘‘no caso do Paraná, o pedágio é uma coisa criminosa, porque surge num momento de recessão’Folha - O governo Lerner tem mudado a configuração econômica do Estado com a atração de indústrias. O sr. bate forte nesse programa. Isso não é ser contra uma tendência de desenvolvimento que alcança todo o País?
Requião - Eu não sou um atrasado. Eu não quero que o progresso pare, mas não posso entender, por exemplo, como o Estado do Paraná viu 50 mil unidades produtivas agrícolas encerrarem suas atividades por falta de financiamento e apoio técnico, em dois anos do governo Lerner. No ano passado, o Paraná viu 10 mil e 56 empresas encerrarem inscrições no Cadastro de Contribuintes. O governo pode financiar a Renault, dando dois bilhões de reais, sendo 1 bilhão e meio na forma de empréstimo com dez anos de carência para pagamento sem juros e correção monetária. E mais R$ 300 milhões em participação acionária, R$ 200 milhões em infra-estrutura e mais 25% de desconto no preço da energia e um berço privilegiado no Porto de Paranaguá. Eu não consigo entender isso. Eu só consigo entender por que a Renault quer vir para o mercado brasileiro.
Folha - As montadoras não trazem lucro para o País?
Requião - Veja o exemplo da Volvo, que foi implantada em Curitiba, com dinheiro público, com incentivos incríveis, na época com a participação acionária do governo, não era empréstimo. O governo era proibido de dar incentivos às multinacionais. A Volvo tinha 80% de nacionalização, hoje ela chegou a 100% de desnacionalização. Os blocos estão sendo fundidos na Índia, onde o trabalhador ganha 200 dólares por mês. Estão sendo usinados na Suécia, sede da empresa, para gerar empregos lá. E nós aqui, estamos montando alguns caminhões e ônibus e estampando algumas latas e ela continua sem pagar impostos, pois os benefícios foram renovados depois de 25 anos. E não me pergunte que órgão de renovação porque tudo neste governo é secreto. Sou a favor das montadoras virem para o Brasil, mas devem vir aqui e pagar imposto e investir dinheiro da empresa. Daí eu não vou discutir se elas geram 50 empregos, 100 empregos ou desempregos, desde que os empregos sejam gerados com seu próprio capital. Agora, quando uma empresa dessas significa a drenagem de todos os recursos que financiariam o pequeno e médio empresário, eu acho que isto está rigorosamente errado.
Folha - O sr. vai rever os contratos com montadoras que já se instalaram?
Requião - Nem há o que rever. Esses contratos não existem. Todo ato administrativo público tem como condição essencial a publicidade. Contrato que não foi publicado não existe. Eu vou chamar esta gente toda, vou oferecer para eles um almoço. Não será nada parecido com os almoços que o Lerner oferece, com camarão e arroz. Vou oferecer um feijãozinho com torresmo e vou dizer que são extraordinariamente bem-vindos ao Paraná, mas que não terão nenhuma vantagem, superior às dadas às empresas paranaenses.
Folha - O significa, em seu ponto de vista, a venda das ações da Sanepar e Copel?
Requião - Significa que o governo está quebrado. Significa que a folha de pagamento, segundo a assessoria de Orçamento do Senado, compromete 138% da receita tributária do Estado. Estamos pagando 38% a mais do que arrecadamos. O Lerner está acabando com o patrimônio público para resolver seu problema reeleitoral. Ele está escondendo a realidade para levar a campanha para frente. O governo está tentando fazer caixa de qualquer maneira. Inclusive esta tentativa de negociação com Banco Central frauda números para o governo fazer caixa mais uma vez. Depois quem é que vai pagar isso? Somos todos nós, ao longo do tempo. O Paraná vai acabar, vai se transformar numa Alagoas.
Folha - O senhor vem criticando muito o pedágio que começou a ser cobrado no Paraná. É errado cobrar o pedágio para garantir a melhoria das estradas?
Requião - Pedágio existe no mundo inteiro. Nos Estados Unidos, menos de 1% das estradas são pedagiadas. Na França, menos de 1% estão nesta condição. Nesses países, uma empresa privada procura descongestionar uma via de entrada e saída de um grande centro, pede uma concessão e constrói paralelamente a estrada uma alternativa, que é oferece excepcionais condições de segurança, com uma via de ida e outra de volta. Cada via tem com várias pistas e eles só cobram pedágio a partir do momento que terminam a estrada. E o Estado não interfere na fixação das tarifas. Nenhum país do mundo tem pedágio acima de 5% de suas estradas. O Paraná já entrou com 18,3% de suas estradas pedagiadas. No caso do Paraná, o pedágio é uma coisa criminosa, porque surge num momento de recessão. O pedágio será pago por quem não utiliza a estrada. O pedágio aumenta o custo do frete. O frete vai para o preço da mercadoria. Quem vai pagar pedágio é quem come arroz, feijão, açúcar...
Folha - Mas o sr. mandou fazer um estudo da viabilidade do pedágio em rodovias estaduais, que não andou, quando era governador. Há relatórios indicando que a Procuradoria do Estado teria, inclusive considerado a cobrança constitucional.
Requião - Não é verdade, não mandei, nunca pedi, nunca vi e sou contra. Um governo tem 167 mil funcionários. Se algum departamento mandou fazer, não fui eu. Quero ver o documento assinado pelo Marés (procurador do estado da época, Carlos Marés), e se não tem assinatura é porque não existe. Pedágio é besteira. É por isso que apenas 1% das estradas de outros países são privatizadas. Porque o custo é muito alto: manter uma estrutura de cobrança consome 40% do que é arrecadado.
Folha - Se é besteira, por que o governo Jaime Lerner está se submetendo a um desgaste desses na campanha eleitoral?
Requião - Eles sabem que já perderam a eleição e estão tentando transferir o Estado para mãos privadas. Por que a pressa em comprar títulos podres? Eles querem transferir a responsabilidade dos títulos podres para o Estado, para o Erário pagar. Eles deviam estar acionando a quadrilha, botando o Murta (José Murta Ramalho, ex-presidente do Banestado) na cadeia, aquela gente toda, o Osvaldo Magalhães (ex-diretor da Banestado Leasing) todo mundo preso na Penitenciária Provisória do Ahú. Eles estão tentando uma negociação para o Estado assumir, pagar o título podre, com financiamento do Banco Central e os próximos governos pagarem isso em 30 anos.
Folha - O governo está admitindo o prejuízo dos títulos publicamente. O secretário da Fazenda, Giovani Gionédis, reconheceu que o Paraná ficou com o mico dos títulos de Alagoas.
Requião - Reconheceu? Foi ele que mandou comprar estes títulos. Depois da CPI dos Precatórios, o secretário da Fazenda comprou títulos de Alagoas, com a CPI encerrada, para livrar corretoras ligadas ao governo do mico. Micou Alagoas, micou Santa Catarina, micou Pernambuco e micou, pior do que tudo, o Banco do Estado do Paraná. Mas graças a Deus, no dia 4 de outubro mica este governo.
Folha - O sr. aponta o escândalo, mas e o caminho para recuperar esse prejuízo?
Requião - Isso é uma obrigação do Ministério Público. Onde está o Ministério Público do Paraná, que tem todas as informações que existem, inclusive as atas do Banestado no meu site no Senado, que eu mandei já para o chefe do Ministério Público por um e-mail e que não tomou nenhuma providência ainda? Eu vou investigar isso, sim. Eu não pretendo ser o chefe do Conselho de Investigação do Paraná, eu quero ser governador, mas nós vamos criar condições para levantar esses dados e entregar para o Ministério Público e para a Justiça. Também não vou dizer que eu vou botar esta gente toda na cadeia. Quem põe na cadeia é juiz, não é governador. O que eu posso garantir é que a marmelada acaba. Acaba a marmelada do pedágio. Acaba a marmelada das multinacionais e nós vamos voltar a tentar a construir uma sociedade à moda antiga. Por incrível que pareça às vezes as coisas antigas, que os modernistas e globalizantes dizem que são conservadoras, são as verdadeiras razões revolucionárias. Eu acho que revolucionária é a ‘‘Rerum Novarum’’, quando estabeleceu a função social da empresa. Revolucionário é o Estado que suporta sua economia em pequenas e médias empresas. Setenta por cento dos empregos oferecidos no mundo são provenientes das pequenas e médias empresas.

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