Entrevista
Há 14 anos em Londrina, o delegado da Polícia Federal José Roberto Morel, 47 anos, comandou na segunda-feira, dia 8, uma das mais expressivas operações contra o tráfico de drogas realizadas nos últimos meses no País. A ‘‘operação Daher’’, como ficou conhecida, resultou na apreensão de 300 quilos de cocaína provenientes da Colômbia, avaliados em R$ 3 milhões, e na prisão do pecuarista José Antonio Daher, seu sócio David Rodrigues Alfredo, o piloto Cesar Rafael Ribeiro Quintana e os colombianos Pedro Gaston Roberto Gomes (co-piloto do avião que trouxe a droga), Gustavo Adolfo Rodrigues Ni¤o e Carlos Mario Mejias Orosco. Segundo o delegado José Roberto Morel, as investigações que desencadearam na prisão dos membros da quadrilha duraram cerca de dois anos. Casado, pai de dois filhos, Morel é delegado da PF há 24 anos. Ele foi o responsável pela operação gigante contra o tráfico de drogas, que dependeria, segundo diz em entrevista, de uma estrutura melhor do que a corporação dispõe.

Josoé de CarvalhoEsforçoDelegado José Roberto Morel: ‘Durante um combate, um policial federal acaba valendo por três ou quatro traficantes de drogas’ ‘Os traficantes tem armas modernas e aviões de todo tipo’‘Combatemos o tráfico com dificuldade’
Paulo Ubiratan
Folha - É difícil combater o narcotráfico internacional?
Paulo Roberto Morel - É difícil porque a PF em Londrina possui poucos policiais, poucos recursos. Posso afirmar que a dificuldade é muito grande porque tanto os traficantes quanto os narcotraficantes possuem muito dinheiro e tomar um avião agora e ir a São Paulo para voltar à tarde é normal para eles. Para nós este numerário não fica disponível.
Folha - A PF está inferiorizada em relação aos traficantes?
Morel - Realmente, a polícia brasileira esta inferiorizada em relação ao potencial de fogo dos traficantes. Os traficantes têm armas modernas e aviões de todo tipo. No entanto, temos capacidade de superar nossas deficiências. Nesta superação, durante um combate, um policial acaba valendo por três ou quatro traficantes. Quero enaltecer que, durante a operação da prisão de José Antônio Daher, os policiais federais de Londrina passaram noites sem dormir, fora do convívio familiar, e nunca reclamaram nada. O policial tem gana de traficante.
Folha - Nas grandes operações, os policiais federais de Londrina operam fora do Estado?
Morel - A Polícia Federal de Londrina trabalha junto com policiais federais de Bauru (SP) e do Mato Grosso do Sul (MS). Há algumas semanas, por exemplo, nós apreendemos, perto de Bauru, 150 quilos de maconha e quatro quilos de cocaína, numa operação conjunta.
Folha - Como as dificuldades da PF são superadas?
Morel - Trabalhamos com criatividade e até com esforços de numerário. Estamos trabalhando gastando o dinheiro do bolso, para dormir e para comer.
Folha - Este dinheiro tem retorno?
Morel - Vai ter retorno, sabe Deus quando...
Folha - Sendo assim, é possível misturar polícia com política?
Morel - É um casamento que não funciona.
Folha - Existe interferência política dentro da PF?
Morel - A Polícia Federal sempre foi apolítica e sempre será apolítica, mas sofre as consequências de ações de políticos. Nós sempre fomos apolíticos mas sofremos a interferência de políticos. Isto começou de cinco anos para cá.
Folha - Londrina é realmente uma porta para o narcotráfico internacional?
Morel - Eu tenho uma convicção da qual posso estar errado, mas é uma convicção através de estudos e análises. Londrina não tem um posicionamento geográfico que a gente possa falar que a Cidade é rota ou não. Toda cocaína apreendida aqui na nossa cidade estava ligada à determinadas pessoas. Basta lembrar que os traficantes Yanes (Gilberto Yanes), Gilberto Monteiro, Dito Quati (Benedito Carlos Clausen) e Daher (José Antônio Daher) é que trouxeram os traficantes internacionas para cá. As quadrilhas não se instalaram sozinhas aqui.
Folha - Como o senhor explica o fato de pessoas que parecem economicamente estabilizadas e de famílias tradicionais estarem envolvidas?
Morel - As famílias dos envolvidos são constituídas de pessoas dignas e trabalhadoras. Infelizmente, alguém da família é assediado pelo dinheiro fácil e em volume muito grande. No caso do Daher, não acredito que ele ganharia somente US$ 100 mil conforme confessou.
Folha - Ele disse que seriam R$ 100 mil para ele e R$ 100 mil para o sócio, David Rodrigues Alfredo...
Morel - O traficante disse que ganharia R$ 100 mil e o seu sócio também a mesma quantia. Isso é uma grande mentira, porque nós sabemos que na Europa a droga passa a valer 400% mais.
Folha - Ele seria, então, um comprador da droga, que faria a revenda?
Morel - Não. Ele funcionava em sociedade com o cartel (Cartel de Cali), cujo representante em Londrina era Gustavo ( Ni¤o). Ele comprou duas aeronaves aqui no Brasil e tinha US$ 50 mil no seu bolso. O Daher e seu sócio David funcionavam como testa-de-ferro do cartel e serviam para mascarar as exportações de frango, madeira e café que levavam cocaína para o exterior. Um colombiano fazendo isto causaria muita desconfiança para as autoridades.
Folha - O café, especificamente, é usado porque mascara o cheiro da cocaína...
Morel - O café tem essa facilidade de suprimir o cheiro da cocaína. Nós já vimos cocaína em caixas com café esparramado e outras de alho e os cachorros detectaram. Atualmente, os traficantes criaram um sistema muito mais difícil e que realmente inibe qualquer cheiro. Eles fazem pacotes prensadinhos, passam fita gomada com cheiro forte e depois passam por cima graxa de carro. Daí ninguém pega nada. Mesmo assim eles terminam de fechar o pacote com um outro saco de borracha e depois papel e fita adesiva.
Folha - O tráfico doméstico é feito por Londrina?
Morel - Não. O tráfico, nesse caso, é feito com destino Rio-São Paulo e a droga nem passa por aqui. Não dá para falar muito sobre isto.
Folha - Quanto às pistas clandestinas em Londrina e região e nas demais localidades do Paraná e São Paulo. Com as dificuldades de pessoal e de recursos, como é que a PF consegue fiscalizar?
Morel - É uma luta inglória. Aqui na nossa circunscrição nós catalogamos 780 pistas clandestinas.
Folha - Existe alguma ligação entre contrabando e o narcotráfico?
Morel - Não existe. O contrabandista não se liga com o tráfico. O que nós temos notado é que o contrabandista deixou de operar no ramo e passou para tráfico, aproveitando o seu avião e as pistas clandestinas.
Folha - Inclusive os pilotos?
Morel - Sim. Largaram o contrabando para ganhar mais dinheiro com o tráfico de drogas. Estamos fazendo investigação a respeito em toda região.
Folha - Uma parte dos cerca de 300 quilos de cocaína apreendidos semana passada em Londrina seriam distribuídas na Cidade?
Morel - Não. Daher nunca vendeu cocaína em Londrina. O cartel jamais deixaria que ele fizesse isso. Imagine toda uma base de tráfico internacional ser destruída por causa de umas graminhas de cocaína. Onde a máfia coloca uma base ela jamais vende uma grama de cocaína.
Folha - Como é que chega a cocaína, a maconha e o crack que diariamente as polícias Civil e Militar apreendem na periferia de Londrina?
Morel - Essa droga chega aqui daquelas mulas, daqueles pequenos traficantes que vão a Corumbá (MS) e ao Paraguai e trazem a droga. O que ele trafica não passa de 10 quilos de cocaína e crack e, no máximo, 20 quilos de maconha
Folha - As investigações sobre os envolvimento de Daher com os cartéis continuam?
Morel - Estamos investigando em todo o Brasil e países da América Latina, por intermédio da Interpol.
Folha - Daher chegou a mandar droga para o exterior, mascarando as operações com exportação?
Morel - Daqui de Londrina não saiu droga. No entanto, tenho conhecimento que Daher chegou a montar uma base do cartel no Mato Grosso. Dali ele teria feito exportação de madeira e frango, mandando cocaína junto.
Folha - Como é que os colombianos entram no Brasil e conseguem alugar apartamento em Londrina?
Morel - Entram como turistas e por intermédio de um brasileiro alugam o imóvel. Como ocorreu com Daher, que alugou o apartamento para os quadrilheiros. Os colombianos alegaram que estavam fazendo curso para produção de sementes no Iapar (Instituto Agronômico do Paraná) de Londrina.
Folha - A empresa Arábica, de exportação e importação, pertencente a David Rodrigues Alfredo, funcionava como no esquema?
Morel - Era apenas uma fachada. Na realidade David e Daher compravam os frangos, o café ou a madeira aqui no Brasil e por intermédio de uma empresa de exportação faziam os seus negócios. Na exportação eles nem queriam ganhar dinheiro, por isso foram facilitados no negócio de fachada: a exportação.
Folha - E as empresas estrangeiras importadoras estão sendo investigadas?
Morel - Sim, por intermédio da Interpol.
Folha - A PF usa agentes infiltrados com narcotraficantes?
Morel - Não. Não precisamos de agentes infiltrados para trabalhar. Eu acho que tenho de ser mais inteligente, superar as dificuldades e não colocar um pai de família em risco de vida.
Folha - A PF tem problemas com testemunhas pelo fato de não poder dar segurança de vida para elas?
Morel - Se eu não tenho infra-estrutura para investigar, é impossível dar segurança para testemunhas. A Polícia Federal de Londrina trabalha de outra forma. Agradecemos a informação e passamos a trabalhar encima dela. Esquecemos aquela testemunha ou informante. Eu tenho consciência que jamais poderei dar proteção a ela. As informações entram aqui e morrem comigo e com os policiais.
Folha - O senhor acredita que quantas quadrilhas de narcotraficantes ainda operam dentro de Londrina?
Morel - É difícil, eu não saberia responder.
Folha - Após a prisão de Daher, o Centro de Direitos Humanos em Brasília teria telefonado, reclamando que alguns dos detidos estariam sendo coagidos para confessar o crime...
Morel - Houve um questionamento nesse sentido. Imediatamente colocamos a sede da PF e os presos à disposição para qualquer investigação a respeito. Vários advogados acompanharam todo desenvolvimento da investigação e não reclamaram nada a respeito dos direitos humanos.

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