Com quase 16 mil pessoas sem emprego formal em Londrina, um índice que representa 7% da população economicamente ativa do município, pode-se dizer que Márcio Pereira Oliveira, 27 anos, é uma daquelas pessoas a quem o destino se encarregou de dar uma boa pitada de determinação, um pouco de sorte e muito carisma para uma vida que, teoricamente, não fugiria à regra daqueles que nascem em famílias numerosas, humildes, de bairros periféricos.
  Salomão, como é conhecido, vende verduras de casa em casa há 16 anos nas ruas da Zona Norte de Londrina. Com o dinheiro das vendas – ele diz que, contando os fiados, dá cerca de R$ 70,00 por dia –, já construiu casa própria, casou-se há quase um ano e acumula histórias diversas, que colhe nos quase quatro quilômetros que caminha diariamente com seu carrinho carregado de verduras e legumes.
  Ao todo são 15 produtos diferentes. Contando com o próprio peso do carrinho, alfaces, couves e quiabos, Salomão carrega cerca de 300 quilos nos braços. ‘‘Pelo menos na subida é esse peso’’, garante. O preço das verduras e legumes é único: R$ 0,85 para qualquer produto, com exceção do cheiro verde que custa R$ 0,30. ‘‘Eu já aviso logo os clientes: aqui é preço único. Pode ser mais barato ou mais caro no supermercado, mas comigo é o mesmo preço o ano todo’’. A estabilidade é garantida pelo acordo que fez com o produtor.
  Nascido em Londrina, Salomão herdou um jeito manso dos pais mineiros e muito tino para negócios. Com fala pausada, um leve sotaque e olhar atento, ele vai ao poucos mostrando o dom de bom vendedor. Durante a conversa, as frases revelam o seu talento: ‘‘Eu não coloco prazo para pagarem o fiado. O bom pagador sabe quanto deve e quando precisa pagar’’, ou ainda ‘‘Se as clientes tivessem que ir até uma quitanda, mesmo que fosse minha, elas não iriam. É bom ser atendido em casa’’. E foi assim, com esse jeitinho, que ele conquistou a esposa Ana Lucia. ‘‘A mãe dela sempre comprava de mim. Um dia, ela teve que ir trabalhar e quem me atendeu foi a Ana. Depois, fiz de tudo para conquistá-la’’, se orgulha em contar.
  Ainda sem filhos, Salomão sustenta a própria casa e dá uma força para os pais. Com quatros irmãos e uma irmã, ele acredita ter sido o filho que conseguiu traçar planos mais objetivos para a vida. Já tem família, casa e um emprego que, mesmo informal, é estável. ‘‘Se a pessoa tiver uma vida sem vícios, com planos e determinação, a honestidade sempre vai fazer ela vencer’’.
  E ele pode dizer isso com segurança. Desde os quatro anos, quando foi atropelado por uma bicicleta, ele precisa tomar remédios para evitar convulsões. ‘‘Isso fez com que eu nunca me metesse com vícios. Uma vezinha só quis jogar naquelas máquinas (caça-níqueis), mas logo passou’’, garante. O apelido ‘‘Salomão’’ também data da infância. A mãe conta que amigos e parentes assistiam um filme que tinha uma tartaruga com este nome; como ele era baixinho e gordinho, a alcunha pegou rapidamente.
  Salomão parece não se dar conta das vitórias grandiosas que conquistou. Emprega um ajudante, distribui verduras e legumes a famílias carentes – quando os produtos já não estão vistosos, mas ainda estão bons para o consumo –, e distribui amizade em cada casa que passa. Para o futuro, sonha em construir uma chácara. Para plantar as próprias verduras? ‘‘Não! Não tenho esse dom, que é especial’’.

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