Entre o saudosismo e a modernidade
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segunda-feira, 11 de maio de 2009
Bia Moraes<br> Colunista da Folha 
Desta vez, parece que vai sair do papel. O plano de tirar os trilhos de trem do miolo da cidade e formar uma nova malha ferroviária no entorno de Curitiba já havia sido cogitado entre 2001 e 2002, mas fracassou por falta de financiamento. Agora, a prefeitura tem um projeto em parceria com o governo federal, através do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes do Paraná (Dnit), e a verba deve sair.
É o que espera a administração pública, que prepara a primeira etapa do processo -a licitação para escolher o projeto que será implantado- ainda sem data para acontecer.
A opinião dos moradores, especialmente os que trabalham ou residem ao lado de trilhos, varia. A reportagem da FOLHA visitou alguns pontos da cidade onde a malha ferroviária faz parte da vida dos bairros. Muita gente se diz a favor da retirada dos trilhos. Há, porém, os que se posicionam contrários ao projeto.
Amigos, Ivo da Silva, 63 anos, e Rui Bertagnoli, 60, divergem sobre a questão. Diariamente, eles se encontram para bater papo na loja de Rui, na Avenida Anita Garibaldi, em frente ao local conhecido como Estribo Ahú. Ali, onde a prefeitura recentemente revitalizou o asfalto, as calçadas e o monumento que marca a antiga estação de trem, os trilhos integram a rotina do bairro. O comerciante Rui afirma que a retirada dos trilhos traria benefícios para a região.
"O trânsito iria ficar menos engarrafado e poderia ter mais comércio daquele lado, onde passa o trem", aponta. Congestionamentos, aliás, são o argumento mais utilizado por moradores para justificar a saída da ferrovia. Somente na Anita Garibaldi, há pelo menos seis cruzamentos entre a via para veículos e a dos trens. Quando uma composição passa, todo o fluxo de carros e transporte urbano é obrigado a parar.
Mas o aposentado Ivo não está nem aí para o trânsito. Muito menos para o barulho do apito, que tanta gente reclama. Segundo ele, "só não escuta e tromba com o trem quem já tomou umas e outras". Ele diz que isso "não é nada" perto do que representa o trem -um ícone da infância e juventude. "Eu embarcava em Rio Branco do Sul (na Região Metropolitana de Curitiba) e descia bem aqui. Por onde tinha trem nessa cidade, eu ia. A melhor coisa do mundo. Por todo canto eu andava", relembra.
Ivo não fica só na nostalgia. Para ele, é importante que as novas gerações conheçam esse meio de transporte tradicional e barato. "Eu quero que meus netos e bisnetos possam andar pela cidade de trem. Essa garotada nem sabe o que representa o trilho, é um patrimônio, não deve ser tirado", opina.
Para ele, deveria ser feito um estudo sobre a utilização da malha ferroviária para transporte de passageiros na cidade. "Já está pronto. É só adaptar. Pra quê tirar e depois escavar tudo e fazer um metrô caro?", indaga o aposentado.
Mais adiante, na mesma avenida, Paulo Jorge Pan, caminhoneiro de 47 anos, conta que "nasceu vendo o trem passar". Ele acredita que retirar os trilhos é "a melhor coisa que podem fazer" para dar lugar a uma nova via rápida, paralela à Anita Garibaldi, e incrementar o fluxo de veículos.
No Alto da XV, na altura da Rua Itupava, os trilhos do trem são rodeados por muito verde. Árvores frondosas, ciclovia e muitos pedestres estão no cenário ao longo da ferrovia naquela região. Dono de uma banca de revistas, Gregório de Bem diz que, por ali, a prefeitura promete fazer um parque linear, no lugar da ferrovia. Ele agradece. "Seria muito bom para melhorar o trânsito. E precisa melhorar a segurança também", aponta o comerciante, lembrando que, no local, circulam bandidos que roubam carros e arrombam casas constantemente.
Funcionária do Mercado Paineiras, Tereza Chaves diz que os trilhos em frente ao comércio trazem o gostinho da juventude. "Do tempo que eu ia de trem para Piraquara (RMC)", suspira. No entanto, ela não se opõe ao projeto de retirada dos trens. Acredita que "o progresso sempre chega, uma hora ou outra".


