Entre o risco e o amor à profissão
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Micaela Orikasa <br> Reportagem local
Você colocaria a própria vida em risco pela profissão? Para alguns entrevistados pela FOLHA, acostumados a atuar em meio a situações de violência e vulnerabilidade, esse questionamento deixou de existir quando perceberam que a escolha profissional poderia ter uma satisfação única: o de fazer alguma diferença na vida de quem precisa.
A equipe conversou com um professor, uma auxiliar de enfermagem do Programa Saúde da Família, uma assistente social da Maternidade Municipal Lucilla Balallai e uma agente do Centro de Referência Especializado em Assistência Social (Creas I). Todos já experimentaram o medo, a insegurança e a ameaça no ambiente de trabalho, mas nenhum deles desistiu.
''Tem gente que me pergunta: por que se arriscar? E eu sempre respondo que é para conseguir dormir à noite, sabendo que fiz minha parte. Meu trabalho não é me meter em encrenca, é ajudar.'' Esse depoimento é de Iracema Pereira Rosa, de 53 anos. Há 13 anos, ela atravessa diariamente a cidade para chegar ao Jardim União da Vitória IV (Zona Sul), onde fica a Unidade de Saúde Básica Orlando Cestari. Lá, ela atua como auxiliar de enfermagem e faz visitas pelo bairro na companhia de duas agentes comunitárias.
''As visitas são sagradas para mim. Eu só fico no posto quando está chovendo muito, pois meu trabalho é estar nas ruas. É conversar com a comunidade, saber quem acabou de se mudar, quem está grávida, quem precisa agendar consulta. Preciso saber de tudo'', diz.
Durante todos esses anos, Iracema já passou por situações de extremo risco. Certa vez foi visitar uma casa, cujo vizinho era novo na comunidade. ''Ele pediu para que entrasse e colocou um revólver na minha cabeça. Ele achou que eu estava lá para contar à mãe que seu irmão estava com Aids'', comenta.
Iracema lembra que a única preocupação no momento era manter a calma. ''Eu disse que se ele não me matasse, eu continuaria indo na casa dele para cuidar da mãe. Ele pensou uns minutinhos e abaixou a arma'', diz.
A auxiliar de enfermagem reconhece que está sujeita a passar por situações de insegurança por consequência do trabalho na comunidade. ''Já tive que ir na casa de traficante fazer curativo porque ele não aceitava ir para a UBS. Ele me ameaçava com faca. Se eu senti medo? bastante'', salienta.
E foi assim, de porta em porta, que Iracema foi conhecendo a todos e aprendendo a lidar com o medo. Hoje, ao caminhar pelas ruas, há sempre paradas para uma conversa ou um cumprimento. ''Sabemos de tudo que acontece aqui, mas isso não impede nosso trabalho. Eles entendem que eu tenho muito a oferecer e isso me motiva cada vez mais a estar aqui. Eu amo o que faço'', afirma.
Duas saídas
Na sala de Luciana Mazzorotto Negrini, assistente social da Maternidade Municipal, há duas portas. ''Eu não tenho proteção. Já me senti ameaçada várias vezes. É por isso que minha sala tem duas saídas'', justifica.
Luciana está há 16 anos na instituição e revela que esteve próximo a deixar o cargo por duas vezes. De acordo com ela, é impossível não se envolver com as histórias nas quais têm conhecimento. ''Tem casos tão graves que me tiram o sono. Por isso, é normal você ficar decepcionada e até desmotivada, mas quando você vê que é possível atingir alguns objetivos, não dá para largar tudo. Eu sinto medo em muitas situações, mas sei da importância do meu trabalho. Se eu não soubesse, com certeza já teria desistido'', diz.
Chamar a polícia também faz parte da rotina de Luciana. Em um episódio mais grave, uma mãe atirou uma cadeira nos vidros da maternidade. ''Ela quebrou tudo porque o juiz não liberou o bebê para essa mãe. A questão é que quem vai lá falar isso para a mãe sou eu. Por isso, digo que toda hora dou minha cara à tapa'', ressalta.
Ao abrir o armário, Luciana mostrou a quantidade de processos que são encaminhados ao Conselho Tutelar ou para o Ministério Público. De acordo com ela, são cerca de 240 casos por ano, a maioria relacionada ao uso de drogas.
''Um dia, um homem veio na minha sala extremamente drogado. Ele dizia que o filho era dele e que iria levá-lo de qualquer jeito. Eu não posso permitir. Então, quando você me pergunta por que eu aceito passar medo ou sentir ameaçada, eu digo que a satisfação em saber que eu consegui proteger ou salvar uma vida é maior que tudo. A satisfação supera o medo, o receio e até a raiva'', comenta.
Confira abaixo fotos exclusivas para a FolhaWeb: