Como ensinam os mais velhos, tudo tem uma primeira vez. Essa é a mais difícil. Depois, as coisas viram rotina. O policial militar Cleverson Rodolfo Ferreira Duarte, 27 anos, setre na polícia, diz que é isso mesmo: ''A primeira morte é traumática, depois, é só mais uma. A primeira vez que você dá um tiro é horrível, depois, é só mais um tiro''.
O policial está do outro lado da polêmica envolvendo emoção e trabalho. Na hora de exercer uma função, o coração tem que ficar em casa.
''Quando a gente pega o relatório, num domingo de manhã, é como pegar uma receita de bolo. Não tem emoção nenhuma. As pessoas viram números'', diz Duarte, garantindo que aprendeu a separar a emoção da razão e só assim consegue continuar trabalhando.
Um fato ocorrido no início da carreira, segundo Duarte, ensinou-o a separar e viver diferentes papéis: ''Eu também sou enfermeiro e uma vez, quando estava trabalhando de plantão num pronto-socorro, entrou um cara baleado com um tiro na barriga. Tinha sido vítima de um assalto. Comecei a preencher a ficha dele e vi que ele tinha nome, era casado, pai. De repente, percebi que ele era uma pessoa. Se eu estivesse fardado, seria mais um caído com um tiro. Aquele dia foi um divisor de águas. Eu aprendi que se estou em casa, sou pai e marido; se estou fardado, sou policial e, de branco, sou enfermeiro. E nunca misturo as coisas''.
A frieza no trabalho muitas vezes é o que garante a segurança do profissional. Outras, é um mecanismo de defesa quase que instintivo. ''Se toda vez que eu olhar para alguém baleado ou morto me sentir mal, não vou conseguir ser policial'', explica Duarte. ''Nesse trabalho tem gente de todo tipo. Se eu começar a me envolver, posso me dar mal uma hora dessas'', alerta Daiane.
A falta de emoção, no entanto, não significa indiferença diante da violência. ''Já aconteceu de eu deitar à noite e não conseguir dormir. A gente vê coisas que chocam. Eu tenho um filho e fico arrasado quando vejo crianças vítimas de violência'', conta Duarte. Ele também garante que quando pode, evita confusão: ''Eu não saio armado de casa a não ser que seja a trabalho. No trânsito, se o cara me xingar, eu olho para outro lado''.
Para o PM, o trabalho na rua é resultado de um treinamento; e a frieza diante dos fatos, também. ''Para toda ação tem uma reação. A gente tem um serviço para fazer, e se existe um obstáculo, temos que colocá-lo no chão. Eu não sinto prazer na violência, mas se tiver que ser violento, eu sou. Temos uma brincadeira entre nós, policiais, que é assim: entre eu e o bandido, quem chora é a mãe dele''.

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