Aparecida do Norte- Enquanto a mistura simples de água e farinha não se tornar ''o corpo de Cristo'' para os católicos pelas mãos de Bento XVI na missa de Aparecida, ela será propriedade da freira Tarcísia de Oliveira, de 70 anos. Na pequena sala da basílica, ela cria, com o auxílio de apenas uma ajudante, este e os outros 400 mil filetes redondos que serão consagrados pelo papa hoje.
A hóstia do papa não é só uma. São três, para caso de algum imprevisto. Mas é tratada como ímpar, a maior de todas.
Desde que Tarcísia a produziu, na primeira quinzena de março, a hóstia se encontra em um armário da sacristia, guardada em um pote de plástico transparente. Apesar de quase tudo da Igreja ser carregado de simbologia, a hóstia não está guardada a sete chaves e se mistura sem nenhum problema com as outras. ''Até o papa realizar a consagração, isso é só pão sem gosto'', esclarece.
Mas, em poucos minutos de conversa, a freira não consegue disfarçar o afeto que tem pela obra e assume que este foi seu maior feito. Foi idéia dela colocar um desenho em alto relevo de Jesus ressuscitado no centro da hóstia. Quando cortou a fina camada de água e farinha fazendo surgir o formato arredondado, Tarcísia quase chorou. Mas o momento não era de lágrimas, pois qualquer fortuito poderia estragar a hóstia mais importante em sete anos de trabalho na Basílica de Aparecida.
Depois de tanto tempo fazendo a mesma coisa, a irmã explica a fabricação de forma didática. Acorda às quatro da manhã e reza durante uma hora - isso é parte da receita, ressalta Tarcísia. Às 8h, ela chega na sua sala e mistura, por 20 minutos, 7 litros de água com 5 quilos de farinha em uma batedeira de 2 metros de altura. Depois, é hora de assar a mescla por 60 segundos. O resultado é uma camada fina de pão sem fermento nem sal. Para cortar em rodelas sem que ela se desfaça, é preciso umedecer a massa em uma máquina especial. ''Quebrar mesmo só o papa'', diz.
Quando a freira recebeu a notícia de que teria que preparar 400 mil hóstias para os fiéis da missa que o papa vai celebrar em Aparecida, ficou assustada. Depois, tomou uma decisão que hoje considera essencial para o trabalho ter dado certo. O ''sábio plano'', como ela mesma define, foi recusar ajuda extra. ''Um bando de gente só iria atrapalhar. Podiam achar que a hóstia precisa ser temperada e daí virava pizza'', justifica.

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