Entre 150 motoristas, Verinha é única mulher a dirigir ônibus
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de agosto de 2006
Adriana Ito<br>Reportagem Local 
O pensamento de que mulheres são péssimas motoristas, e devem ''esquentar a barriga no fogão e esfriar na pia'' já foi para o ralo faz tempo. O alto índice de mulheres chefes de família, o fato de já serem maioria nas universidades e outras estatísticas comprovam que a participação feminina no mercado de trabalho é cada vez mais significativa. Que o diga Vera Lúcia de Souza Pinto Leite, de 53 anos.
Vera é a primeira mulher motorista contratada pela Francovig. Dentro de duas semanas ela deve assumir uma linha de ônibus do transporte coletivo urbano de Londrina.
Mineira de nascimento, Vera já morou em Londrina anteriormente, foi para o interior de São Paulo, e está de volta há cinco anos. A motorista, que já se prepara para ouvir comentários do tipo ''vai pilotar fogão'', conta que seu último emprego foi justamente como merendeira em uma escola municipal, mas que também tem 11 anos de experiência com transporte coletivo.
Ela até cozinha, mas prefere pilotar veículos grandes. ''Estou me preparando para lidar com todo o tipo de público. Se vierem comentários preconceituosos, simplesmente vou ignorar'', avisa, com a sabedoria de quem já nem leva a sério as provocações. ''Trabalhei 11 anos dirigindo vans, Kombis e ônibus em Piracaia. Lá, meu apelido era 'a perua da Verinha'. Agora eu evoluí'', diverte-se. Enquanto cumpre as 40 horas de treinamento da empresa, ela se derrete em elogios aos novos colegas de trabalho. ''Todos têm me tratado muito bem''.
O fato de ser a única mulher entre os 150 motoristas da Francovig, empresa que está completando 30 anos, não a intimida. ''Não é o fato de ser homem ou mulher que vai definir. Existem motoristas bons e motoristas ruins, independentemente do sexo. Não existem homens cozinheiros e costureiros?'', questiona. A diferença, segundo ela, é outra. ''Percebo que eu tenho mais facilidade para expressar meus sentimentos e minhas dificuldades, o que pode ser um diferencial'', observa. ''Os homens realmente ficam mais reticentes, são mais machões nesse aspecto'', concorda o instrutor José Dorth Filho.
Ser a única motorista do transporte coletivo da cidade não soa como uma responsabilidade a mais. ''Meu objetivo é realizar um bom trabalho, com responsabilidade e dedicação. Acredito que tenho tudo para ser uma ótima funcionária.'' Dorth informa que Vera está se preparando para para dirigir todos os tipos de ônibus da empresa, com exceção dos articulados.
''Nós temos a intenção de contratar mais mulheres, mas há um desinteresse por parte delas'', lamenta Milton Félix Santos, gerente de transporte. Esta não é a primeira vez que uma linha de ônibus é conduzida por uma motorista mulher. A Transportes Coletivos Grande Londrina (TCGL) já contratou uma motorista há pouco mais de vinte anos, e que até hoje é lembrada por muitos passageiros. Assim como a Francovig, a TCGL também está aberta à contratação de mulheres para o cargo, mas se ressente da pouca procura por parte das candidatas.


