Entrando em festa alheia
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quarta-feira, 26 de junho de 2002
Phoenix Finardi<BR>Reportagem Local 
Os dois velhinhos saíram de casa atrasados. Dona Irene ajeitou o vestido mais uma vez antes de entrar no carro. Seo José trocou os óculos. Depois dos 70 anos, ninguém se preocupa muito com horário. Estavam indo ao casamento de uma sobrinha. O carro, uma Brasília 77, também tinha suas manias - só pegava depois da quarta ou quinta tentativa.
Logo na esquina, seo José se atrapalha: O que aconteceu com essa rua? Os carros estão todos ao contrário!. Dona Irene se apavora: Seo José, não está vendo que está na contramão? A prefeitura mudou o sentido das ruas esses dias, não viu no jornal?. Ainda se tratavam assim, com uma certa formalidade, mesmo depois de mais de 50 anos de casamento. Mas era uma formalidade fictícia - entre os dois, até um pigarro fazia sentido.
Perseguido pelas buzinas dos outros carros, seo José conseguiu chegar até a esquina. Agora sim, essa rua está certa. Um olho na pista, outro nas fachadas, seo José reclamava baixinho: Não era só o sentido das ruas que estava diferente; as casas mudaram de lugar, apareciam prédios onde antes havia jardins e nem o comércio era o mesmo de antigamente. Nem parece mais minha cidade pensou.
Seo José, preste atenção! Tinha que ter virado ali observou dona Irene. Ela não sabia dirigir e se contentava com a função de co-piloto. Às vezes, exagerava nos palpites. Ué, também mudaram a igreja de lugar? espantou-se o velho. Não seo José, é do outro lado da rua.
Bom, vamos parar aqui mesmo. Desliga o carro, troca os óculos, pega a carteira, a bolsa, ajeita o chapéu. Tranca as portas. Você trancou a porta da cozinha quando saiu? pergunta dona Irene. Só Deus sabe, garante o marido.
A igreja estava fechada. Tá vendo, seo José? Estamos mesmo muito atrasados. Já foram todos para o jantar. Melhor, a única parte que eu gosto é a da comida. De volta ao carro, novas tentativas até o motor pegar. Onde era mesmo o buffet? pergunta seo José. É naquele onde a Celeste deu aquela festa, lembra?, ensina Irene. O que fica na saída da cidade?
Não, aquele é onde casou o Luiz Henrique. Esse que eu estou falando é onde serviram aqueles canapés de camarão, que você passou mal depois. Ah, já sei. O buffet devia estar lotado. Seo José demorou uns 15 minutos para achar uma vaga para a Brasília no estacionamento.
Lá dentro, a única mesa vazia ficava logo na entrada, do lado da porta. Sentaram ali mesmo. Seo José, não estou vendo ninguém conhecido. Aquela ali não é a Clarinha?. Só se virou travesti, dona Irene. Vamos comer que estou com fome.
Depois do jantar, os dois entram na tradicional fila para cumprimentar os noivos. Quando ficam de cara com o casal, dona Irene lança um longo olhar para o marido. Ele dá de ombros, abre um sorriso, cumprimenta o noivo, beija a noiva...
Num minuto estão do lado de fora. Entram no carro em silêncio. Seo José troca os óculos, dona Irene abre a bolsa, tira o convite. Seo José, o casamento é amanhã. Ah, e o jantar é mesmo naquele buffet na saída da cidade, onde o Luiz Henrique se casou.


