Emerson Cervi
De Curitiba
O Sindicato dos Engenheiros do Paraná (Senge), Associação dos Professores da Universidade Federal do Paraná (APUFPR) e algumas entidades ambientalistas pretendem apresentar uma ação civil pública contra as obras na Praça Nossa Senhora de Salete. Desde o início da semana advogados estão analisando comoapresentar a ação, com pedido de liminar suspendendo as obras iniciadas no sábado passado, 11. ‘‘Somos contra a descaracterização daquele local’’, disse ontem o presidente do Senge, Carlos Roberto Bitencourt.
As obras de mudança começaram com a retirada do acampamento dos sem-terra, que ficou quase seis meses em frente ao Palácio Iguaçu. No lugar do espaço vazio entre os prédios públicos serão construídas canchas esportivas cercadas por grades, estacionamento e área para lazer. O cronograma prevê a conclusão no mês de março.
Como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-terra (MST) ameaçava reocupar a praça, a remodelaçãocomeçou pela colocação das grades. A professora do departamento de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Josilena Maria Zanello Gonçalves, não concorda com a proposta do governo do Estado. ‘‘A praça foi concebida como espaço de manifestações populares e cívicas e os edifícios como espaço aberto e de livre acesso para a população’’, escreveu no artigo ‘‘A praça é do povo...’’, publicado pela Folha em 13 de dezembro.
O advogado Vitório Sorotiuck, que deverá apresentar a ação civil pública, acredita que há irregularidades desde o início das obras. ‘‘O governo começou a trabalhar na praça em um sábado e domingo, véspera do aniversário de 20 anos do Ato Institucional 5’’, lamenta. Ele entende que o domínio físico daquela área seja do Estado, mas o patrimônio histórico e o meio ambiente são bens de uso comum.
‘‘Vivemos em uma democracia direta e representativa, onde a sociedade precisa exercer pressão popular sobre o governo e se a praça for cercada esse direito legítimo estará prejudicado’’, disse o advogado. ‘‘Só vai poder exercer pressão aos ocupantes temporários do Palácio Iguaçu a força do capital e da gravata’’, completa.
Outro argumento contra o projeto do governo para remodelação da praça é o patrimônio histórico. Segundo o professora Josilena Gonçalves, o projeto da praça Nossa Senhora de Salete foi concebido para ser um ‘‘Cuore (coração da cidade)’’, espaço público destinado a edifícios administrativos, culturas e comerciais, além de área para livre manifestação popular. ‘‘De todos os projetos teóricos de materialização do Cuore, o Centro Cívico de Curitiba foi o primeiro a ser construído e tem uma importância incontestável na história da arquitetura moderna brasileira’’, conclui.

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