Dezenas de pessoas ligadas à Associação Londrinense de Saúde Mental (ALSM) e ao Conselho Regional de Psicologia participaram na tarde de ontem, no centro de Londrina, de um protesto que marcou o Dia Nacional de Luta Antimanicomial, que objetiva a substituição dos tradicionais internamentos em sanatórios e manicômios por tratamentos em clínicas abertas, sem a exclusão social dos pacientes.
As entidades distribuíram panfletos à população explicando que o movimento nacional defende uma política de saúde mental pública e gratuita de acordo com os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). ‘‘Defendemos a implantação da reforma psiquiátrica e o fim de todo tipo de discriminação, exclusão e marginalização do chamado doente mental’’, afirma a presidente da ALSM, Adélia Fagotti Buranelli, que é professora universitária de biologia.
Mario CesarTravestis distribuíram panfletos no Calçadão: luta contra AidsSegundo ela, a população brasileira deve se unir neste movimento, que se baseia na solidariedade humana, e se contrapor à continuidade do tratamento fechado e excludente praticado pelos antigos sanatórios. ‘‘Não podemos mais conviver com clínicas, hospitais e manicômios que depositam os doentes como se eles fossem coisas. Eles necessitam, além dos medicamentos, da atenção e sossego de seus amigos e familiares para a recuperação. Este é um direito, um princípio da cidadania. É isto que defendemos’’, comenta Adélia Buranelli.
De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, cerca de 20% da população sofre de algum tipo de distúrbio mental, que pode ir de simples fobias e depressões, até neuroses, surtos psicóticos e esquizofrenias. As entidades também coletaram assinaturas em documentos que serão enviados ao Congresso Nacional reivindicando a aprovação da reforma psiquiátrica proposta por um projeto de lei do deputado federal Paulo Delgado (PT-MG), que tramita há cerca de dez anos.
Em Londrina, as pessoas com doenças mentais são atendidas basicamente no Núcleo de Apoio Psicossocial (Naps), que é municipal, e em dois hospitais particulares. O Naps conta com seis leitos para internações que duram, no máximo, uma semana. A proposta do núcleo municipal de saúde mental é o de atendimento em forma de hospital-dia, em que até 30 pacientes recebem tratamento diurno e voltam para suas casas todas as noites. Os hospitais da rede particular, que atendem pacientes do SUS, contam com cerca de 300 leitos.
Na manifestação de ontem, as entidades reivindicaram a descentralização do Naps para outras regiões da cidade, e um imóvel onde pudesse ser montado um novo centro de atendimento especializado a ser mantido pela ALSM. O médico-psiquiátrico Percy Galimberti, chefe do hospital dia do Naps, conta que, em menos de três anos de funcionamento, o núcleo já atendeu perto de 8.800 pessoas com problemas mentais de diferentes graus. Ele considera que este tipo de atendimento aberto, em substituição às internações tradicionais, não avança por três razões básicas: a força do lobby dos donos de hospitais particulares no Congresso Nacional, a desinformação dos pacientes e suas famílias em relação aos seus direitos de cidadania, e a cultura autoritária dos médicos, que impõem um completo domínio sobre os doentes.
O secretário municipal de Saúde, Agajan Der Bedrossian, diz concordar com o avanço do tratamento de doenças mentais pelo sistema de semi-internamento em hospitais-dia. ‘‘O problema é que isto não é possível em todos os casos. Mas o Conselho Municipal de Saúde está aberto a este tipo de avanço, que é uma luta antiga, de mais de 20 anos da sociedade brasileira’’, comenta. Ele afirma que, no entanto, não recebeu nenhuma solicitação da ALSM em relação a um espaço ou imóvel para a implantação de um novo centro de convivência para doentes mentais.

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