Entidades fazem alerta sobre impacto de usinas no Tibagi
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de fevereiro de 1999
Francelino França 
Preocupados com o impacto sócio-ambiental que poderá ocorrer com a construção de usinas hidrelétricas no Rio Tibagi, representantes de entidades ligadas à defesa da bacia hidrográfica organizaram o 1º Encontro das Populações do Vale do Tibagi. O evento aconteceu ontem em Jataizinho (21 km a leste de Londrina) e reuniu entidades como Apeart (Associação de Projetos de Educação dos Assalariados Rurais Temporários), CPT (Comissão Pastoral da Terra), Ministério Público, Departamento de Ciências Sociais e de Biologia da UEL, MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), entre outros.
Segundo Wagner do Amaral, um dos organizadores do evento, o objetivo é fomentar a discussão sobre os projetos de construção das hidrelétricas no Tibagi. Serão construídas sete usinas, e quatro projetos já estão prontos. A bacia do Tibagi possui 550 km de extensão, é considerada a terciera mais importante do Paraná e abrange 42 municípios.
Durante o encontro, pesquisadores divulgaram resultados de trabalhos sobre o impacto ambiental naquela região, apontando para a inviabilidade dos projetos. O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto do Meio Ambiente (Rima) não contemplam as informações fundamentais dos pesquisadores, assegura Amaral. As comunidades indígenas serão gravemente atingidas. Serão dizimados cemitérios, sítios arqueológicos, áreas de preservação, matas nativas e também o processo de pesca usado pelos índios será prejudicado, argumenta.
Isabel Cristina Diniz, coordenadora da Pastoral da Terra, afirma que existe superávite de produção de energia no Estado. O argumento da Copel para a construção das hidrelétricas é o défict do consumo paranaense. Isso não é verdade. Apenas 30% da energia produzida no Paraná é consumida aqui, adverte. Outro fator relevante para os organizadores é que não há garantia que a Copel será responsável pelas obras de construção. Quem vai garantir depois que os direitos da população serão assegurados, questiona Isabel.
Namblá Gakran, índio da tribo Xokleng, Ibirama (próximo a Blumenau, SC), relatou a experiência de sua reserva com a construção de uma usina. Ele atestou que desde a construção da barragem, na década de 70, não houve indenização. O kaigang Américo Rodrigues, cuja reserva localizada em São Jerônimo da Serra será diretamente atingida, alarma-se com o que pode sumir e prejudicar na vida das 63 famílias indígenas. Serão 24 alqueires que vão desaparecer. Tem mata nativa, pastagens, vários tipos de peixes e ervas medicinais naquele local, informa.
Outro fator que levou as entidades a se reunir foi a denúncia de adulteração no Estudo de Impacto Ambiental, documento fundamental para a construção das usinas. O promotor de Justiça da Comarca de Uraí, José Roberto Manchini, está à frente do inquérito civil instaurado em maio de 98, para apurar a irregularidade. Foi denunciado que o primeiro estudo havia sido adulterado, com a supressão de algumas partes, informou. O promotor do Ministério Público Saint Clair Honorato dos Santos ressaltou: Se encontramos falhas, pediremos um estudo global do impacto ambiental em toda a extensão do Rio Tibagi e sobre a comunidade.


