O Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente de Londrina teme uma repetição, na Cidade, do episódio da Candelária, quando, na madrugada de 23 de julho de 1993, foram exterminados oito adolescentes de um grupo que dormia na rua.
O receio vem das repetidas ameaças, recebidas pelo Conselho Tutelar, de extermínio de crianças e adolescentes que perambulam pelas ruas. As ameaças, diz o presidente do Conselho, Júlio Botelho, têm sido constantes nos últimos 30 dias - só na semana passada foram cinco. Segundo dados da Secretaria Municipal de Ação Social, 80 crianças e adolescentes vivem hoje nas ruas da Cidade.
‘‘Se existem essas ameaças é porque as coisas não estão nos seus devidos lugares. As pessoas estão incomodadas com a falta de providências para tirar as crianças das ruas’’, acredita Botelho. ‘‘Nem dou atenção a esse tipo de coisa porque isso é um movimento de pessoas que não estão interessadas em se envolver na solução’’, afirma a secretária de Ação Social, Marisa Goettel do Nascimento.
As ameaças, segundo Botelho, são anônimas e feitas sempre por telefone. Ele, outros conselheiros e a secretária do Conselho atenderam aos telefonemas. Botelho afirma que, apesar de a voz ser sempre masculina, não é a mesma. ‘‘Eles pedem para que façamos alguma coisa para tirar os menores das ruas e ameaçam agir com as próprias mãos.’’
Diante do aumento de ligações na semana passada, Botelho pretende levar o caso à Promotoria Pública. Na quinta-feira ele pediu a colaboração da Igreja Católica, em encontro com o arcebispo dom Albano Cavallin. Além de oferecer ‘‘todo o apoio e colaboração no que for preciso’’, dom Albano colocou à disposição o Jornal da Comunidade para mostrar a situação dos menores de rua. Com uma tiragem de 10 mil exemplares, o JC circula em todas as paróquias de Londrina, mensalmente.
O aumento da equipe de educadores de rua e das casas-abrigo para adolescentes são duas medidas essenciais, na opinião de Botelho, para mudar o quadro que tanto incomoda a população. Atualmente, segundo ele, são cinco educadores de rua, contra 17 em anos anteriores. O número de casas-abrigo foi reduzido pela metade - de quatro para duas. Cada uma abriga 10 menores sem vínculos familiares.
A redução no atendimento, segundo Botelho, começou no ano passado. O presidente do Conselho Tutelar reclama que a única resposta da Prefeitura é a falta de recursos - financeiros e humanos - para aumentar o atendimento social aos menores. ‘‘Isso não é resposta. Vamos esperar que Londrina vire uma Candelária?’’
Outra dificuldade é a falta de vagas nas instituições profissionalizantes para adolescentes. Botelho cita o caso da Escola Oficina, no conjunto João Paz (zona norte) que, além de não ter vagas, já está trabalhando acima da capacidade. As 175 vagas da escola estão sendo divididas por 187 alunos. O conselheiro enumera ainda Epesmel, Guarda Mirim e Linha do Ofício (Escola de Informática) como instituições profissionalizantes que não têm vagas para receber novos adolescentes. ‘‘Não há vagas é o que mais ouvimos. E o que vamos fazer com os menores que chegam até o Conselho?’’
Relatório trimestral do Conselho mostra que nos meses de janeiro, fevereiro e março foram registrados 66 casos de crianças e adolescentes vivendo nas ruas. Os pontos mais frequentados pelos adolescentes, segundo as denúncias recebidas pelo Conselho Tutelar, são a já conhecida seringueira da rua Benjamin Constant; o Terminal Urbano de Transporte Coletivo, onde estaria dormindo um grupo de 10 menores; a Concha Acústica; toda a avenida Higienópolis e o Calçadão; a Feira da Lua, no Zerão; a praça Rocha Pombo; proximidades da Câmara, Prefeitura e Fórum; Santa Casa e Hospital Evangélico.
Entre os 2.659 atendimentos feitos pelo Conselho no primeiro trimestre deste ano, 23 foram por uso de substância tóxica; oito por prática de ato infracional; 15 vítimas de prostituição e 44 foram encaminhamentos de menores para outros municípios. ‘‘Nesse ritmo vamos chegar, até o final do ano, a 10 mil atendimentos de crianças e adolescentes que tiveram seus direitos violados de alguma forma.’’

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