Ensino superior atrai milhares de jovens
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de agosto de 1997
Osmani Costa 
Londrina
Josoé de CarvalhoNo campus da Unopar de Londrina, mais de 85% dos alunos dos cursos de graduação moram nos municípios da Região MetropolitanaEntre os diferentes setores - negócios, trabalho, transportes, lazer, comércio - que unem, na prática, os seis municípios da futura Região Metropolitana de Londrina (RML), um que merece destaque é o da educação. Para os colégios, cursinhos preparatórios para vestibulares e escolas de terceiro grau de Londrina vêm, anualmente, milhares de jovens oriundos de cidades vizinhas, outras regiões do Paraná e diversos estados brasileiros.
Além de dezenas de bons colégios e cursinhos, a Cidade conta com duas universidades e um centro de estudos superiores, que oferecem 56 cursos de graduação - em quase todas as áreas do conhecimento - e 126 cursos de pós-graduação, entre especializações, mestrados, doutorados e residências médicas. No total, são quase 14 mil estudantes na graduação e perto de 2.500 alunos nos cursos de pós-graduação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Universidade Norte do Paraná (Unopar), e Centro de Estudos Superiores de Londrina (Cesulon). A UEL pertence ao Estado do Paraná e oferece ensino gratuito, enquanto que a Unopar e o Cesulon são instituições privadas e cobram mensalidades de seus estudantes.
Josoé de CarvalhoO Cesulon, uma das instituições particulares de ensino superior da Cidade, tem cerca de 1.500 alunos em sete cursos
Outra cidade da nova região metropolitana que conta com ensino superior é Rolândia. Lá, a Faculdade de Ciências Contábeis e Administrativas de Rolândia (Faccar) conta com três cursos de graduação - cerca de 900 alunos - e um na pós-graduação. A Unopar possui um segundo campus em Arapongas - cidade 37 quilômetros a oeste de Londrina que reinvidica ser incluída na RML -, onde oferece 14 cursos e conta com 787 alunos.
Dados fornecidos pelas instituições de ensino não deixam dúvidas quanto a massiva presença de estrangeiros nos cursos de terceiro grau existentes em Londrina e região. Na UEL, dos 10.262 estudantes da graduação, apenas 3.911 - 38,11% - são de famílias residentes nos seis municípios da futura região metropolitana. Parte dos alunos - 61,89% - que vêm de fora buscar aperfeiçoamento profissional na UEL termina por mudar-se para Londrina. Outros prosseguem, durante anos e principalmente nos cursos noturnos, tendo que viajar diariamente em ônibus fretados ou oferecidos pelas prefeituras das cidades vizinhas.
No campus da Unopar de Londrina, dos 2.134 alunos da graduação, 1.821 - 85,33% - são moradores dos municípios da RML. No campus de Arapongas, 99 estudantes - 12,57% - dos 787 matriculados são de Londrina, Cambé, Ibiporã, Jataizinho, Rolândia e Tamarana. No Cesulon, não há dados estratificados sobre a origem dos cerca de 1.500 alunos. Na Faccar de Rolândia também não há dados precisos, mas a administração avalia que aproximadamente 70% dos 900 alunos - algo em torno de 630 - residem em municípios vizinhos.
César AugustoVida duraJaime, de Rolândia: Nem dá tempo de voltar para almoçar em casa
De ônibus de linha, fretado ou das prefeituras. De automóvel próprio, de motocicleta, de táxi ou de carona. De uma ou de outra forma, eles vêm diariamente das cidades vizinhas para os colégios e escolas de terceiro grau de Londrina. Eles são milhares de estudantes e professores residentes nos outros municípios da Região Metropolitana (RM) e que têm, em Londrina, o local de trabalho ou de preparação profissional.
Eles enfrentam quilômetros e quilômetros da BR-369 - às vezes mais de uma vez por dia - com sol ou chuva, de manhã, de tarde ou de noite. Mas, no final de cada semana, apesar de cansados se dizem contentes por morar em cidades menores, felizes com o corre-corre; e consideram que vale a pena o sacrifício.
Gustavo Dalmas, 20 anos, mora em Cambé e cursa o 4º ano de Odontologia na Unopar. Entre a casa dele a a universidade são exatos 15 quilômetros. Ele gasta 20 minutos na viagem, em carro próprio. Vem para Londrina de manhã e só volta para Cambé no início da noite. Dificilmente vou almoçar em casa. Não dá tempo, é muito corrido, o melhor é ficar aqui direto, comenta.
Ele lembra que, entretanto, a situação já esteve pior. Ganhei o carro de meus pais recentemente. Nos três anos anteriores, viajava diariamente de ônibus. Mas já estou me formando e valeu o sacrifício, afirma Gustavo Dalmas. Minha família toda é de Cambé, é legal morar lá, mas vir para Londrina estudar e depois trabalhar é quase que inevitável. Meu pai - José Carlos - também vem todos os dias, porque é professor de Estatística aqui na Unopar e na UEL.
O mestre em Filosofia Sergio Tiski mora em Arapongas e é professor da UEL há dez anos. Quase todos os dias ele vem para Londrina mais de uma vez, porque leciona em cursos matutinos e noturnos, além de ser diretor do Sindicato dos Professores (Sindiprol). Em cada viagem - de aproximadamente 40 quilômetros -, ele gasta 40 minutos em automóvel próprio. A mulher dele, Celimara, também viaja todos os dias entre as duas cidades, porque cursa o 3º ano de Filosofia na UEL. O casal tem dois filhos menores.
Não nos mudamos ainda para Londrina por questões pessoais - os familiares moram em Arapongas e Apucarana -, pela qualidade de vida - uma cidade menor é melhor, mais tranquila para as crianças -, e por motivos econômicos: em Arapongas temos a nossa casa; com o dinheiro da venda dela seria difícil comprar outra do mesmo nível em Londrina, ressalta Sergio Tiski. Ele lembra que até dois anos atrás só possuía uma motocicleta: Naquela época, a coisa era brava. À noite e em dias de chuva era duro vir para a UEL. Tive que vir muitas vezes de ônibus e de táxi, para não chegar enxargado e para não obrigar os alunos a ficarem sem aulas.
Ele está animado com a possibilidade da criação da Região Metropolitana de Londrina, e considera que Arapongas deve ser incluída nela. A idéia é boa, tem tudo para dar certo. O caminho é este mesmo: analisar os problemas comuns aos municípios vizinhos e pensar nas possíveis soluções de maneira coletiva. Porém, o professor da UEL está apreensivo com a possibilidade da instalação de um pedágio no trecho da rodovia BR-369 entre Londrina e Arapongas. Com o processo de privatização das estradas federais e estaduais, há rumores de que vão colocar um pedágio e cobrar tarifa para se ir e vir entre estas duas cidades vizinhas. Se isto ocorrer, vai inviabilizar este processo de integração e o projeto de criação da área metropolitana.
Jaime Freiberger Junior, 22 anos, mora em Rolândia e cursa o 4º ano de Engenharia Civil na UEL. Da casa dele até a universidade são 22 quilômetros, que o ônibus da prefeitura gasta cerca de 30 minutos para percorrer. Como o curso é de período integral, em alguns dias ele tem aulas de manhã, de tarde e à noite. Raramente vou almoçar em casa. O normal é ficar por aqui e, como não temos restaurante universitário no campus, enganar a fome com um lanche. Ficar indo e vindo, de ônibus, é cansativo e acabamos perdendo muito tempo na estrada.
Por causa desta perda de tempo e também por medo de acidentes nas estradas, muitos estudantes acabam se mudando das cidades vizinhas para estudar em Londrina. É o caso de Anna Karina Pansardi, 21 anos, que veio de Jataizinho e cursa o 3º ano de Odontologia na Unopar. No primeiro ano, eu viajava em carro próprio todos os dias. Era muito cansativo e meus pais ficavam preocupados com o perigo da estrada, com a possibilidade de uma batida. A melhor saída foi mudar-me para Londrina, conta a acadêmica.
Ela estuda em Londrina desde a 8ª série. Até entrar na universidade, eu viajava em ônibus escolar da prefeitura. Foi muito cansativo, mas não tinha outro jeito, porque infelizmente em cidades menores não há bons colégios. Agora, fico aqui a semana inteira e vou para a casa de meus pais nos sábados e domingos. Está bem melhor assim, afirma Anna Karina.


