No horário em que a maioria das pessoas está indo dormir, uma grande parcela da população está saindo para o trabalho. Com o crescimento das cidades, comércio e prestadores de serviço tiveram que se adaptar aos novos horários exigidos pelos consumidores, cada vez mais acostumados ao atendimento 24 horas. É para atender esta demanda que muita gente trabalha fora da jornada tradicional.
Se até uns anos atrás apenas os serviços essenciais, como farmácias, hospitais, vigilância, polícia, funcionavam durante a madrugada, hoje há um universo que inclui de operadores de call center a entregadores, profissionais ligados acima de tudo aos ramos de transporte, energia e comunicações. Pessoas que trocam a noite pelo dia para que o cotidiano da população continue a funcionar normalmente.
Para garantir a saúde dos outros, o entregador de remédios Vanderlei Batista de Oliveira trabalha há sete meses no período alternativo. Apesar de já ter sido entregador de pizza e trabalhado até o início da madrugada, é a primeira vez que trabalha durante todo o período. Como se não bastasse um emprego, Oliveira possui dois: um durante o dia, e outro de madrugada, no qual cumpre uma carga horária que vai das 22 horas até as 6 da manhã.
''Hoje, considero o trabalho da noite como um extra, mas se pudesse escolher, ficaria somente na madrugada. Além de alguns benefícios que recebo, como o adicional noturno, para mim que sou entregador é muito melhor à noite; não tenho que enfrentar o trânsito do dia. O trabalho noturno é bem mais tranquilo, tem um certo momento em que o movimento praticamente para.''
Oliveira lembra ainda que, com o trabalho da madrugada, é possível passar mais tempo com os filhos. ''Estando durante o dia em casa, consigo ficar com as crianças e dar mais atenção a elas. Enquanto elas dormem, eu trabalho. Com a esposa não é diferente, dá tempo de namorar tranquilamente'', garante.
Salário melhor
Da mesma forma faz o recepcionista de hotel Gilvan Bortoni, que trabalha há pouco mais de um ano no turno da madrugada. Ele confessa, porém, que trocar o dia pela noite resulta em cansaço dobrado. ''No início foi complicado driblar o sono. Mas tenho força de vontade, e isso faz que eu deixe o cansaço de lado. Além disso, trabalhar no período da madrugada foi uma escolha pessoal, tanto em função do salário quanto dos benefícios, que são melhores.''
Com uma folga semanal, ele cumpre uma jornada diária de oito horas, das 23 às 7 horas da manhã. Para descansar, reserva o período da manhã. ''A princípio, trabalhar neste turno atrapalhou o relacionamento com minha esposa, mas acabamos nos adaptando à nova rotina. A vantagem de ter o dia livre é que consigo ficar com meus filhos e ainda cuidar da casa. Apesar disso, o sono acaba sempre um pouco sacrificado. Mas dá para me organizar'', diz.
Ainda assim, Bortoni diz que optaria pela noite mesmo se pudesse escolher trabalhar do período diurno. ''Embora seja mais perigoso trabalhar de madrugada, nunca tive problemas. Para mim é muito tranquilo, sem falar que o fluxo de clientes é bem menor. Em relação à vida social, sempre consigo dar um jeito. Como não bebo, dá para ir a um churrasco e de lá direto para o trabalho. Quando não é possível, vou nos meus dias de folga.''

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