Enfoque de gênero já orienta políticas públicas
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de novembro de 2001
Érika Pelegrino<br>De Londrina 
''Só quando os princípios feminino e masculino voltarem a dominar o mundo juntos é que será revertido o processo de destruição da espécie''. A afirmação é da física, escritora, conferencista internacional e feminista, Rose Marie Muraro que esteve sexta-feira em Londrina ministrando palestra sobre ''Gênero nas Políticas Públicas'', na abertura da II Conferência Municipal dos Direitos da Mulher.
Ela afirma que o instrumento para acabar com a relação dominante/dominado, com a ''lei do mais forte'', é a implantação de políticas de gênero. Rose Muraro faz um relato da história da mulher em dois milhões de anos para fundamentar a importância e a necessidade destas políticas.
Em dois milhões de anos de história da humanidade houve várias fases de desenvolvimento balizadas sobre diversas tecnologias. A primeira fase a do seixo rolado durou um milhão e meio de anos e tinha o gênero feminino como dominante. Sem conhecimento da paternidade dos filhos (os homens acreditavam que crianças eram filhas dos Deuses), as mulheres governavam pela persuasão, pela sedução, pelo consenso e de cima para baixo.
''O poder era uma espécie de batata quente nas mãos das pessoas'', afirma Rose Muraro. Os instrumentos de trabalho, a comida, eram propriedades comuns. A lei vigente era a da solidariedade e da partilha. O poder era um serviço exercido por um e por outro.
No período em que a tecnologia desenvolvida era a do machado de pedra lascada, o alimento começa a ser escasso e surge a sociedade de caça aos grandes animais. Exige-se neste período a força física e o homem passa a governar de cima para baixo. Os mais fortes dominam os mais fracos e o homem passa a dominar a mulher. As crianças passam a ver a dominação do pai sobre a mãe. ''É a semente da dominação do homem sobre o homem. Como aquilo que a criança vê no seu primeiro ano de vida torna-se natural para ela, a sociedade autoritária se torna natural'', explica Rose Muraro.
É neste contexto que o poder passa a ser um privilégio e nasce a sociedade autoritária e excludente, que tem seu ápice quando o homem descobre quem é o pai da criança. A partir daí a mulher perde todo o prestígio e é colocada em casa, cozinhando, limpando, cuidando dos filhos; e o homem vai para o domínio público. A lei vigente deixa de ser a da solidariedade e passa a ser a do mais forte. A tecnologia que determina o período da sociedade patriarcal e escravista é a capacidade de fundir o metal.
O homem começa a dividir as terras entre as famílias e os mais fortes invadem as terras dos mais fracos. Mulheres e filhos, neste período, são trazidos como escravos pelo homem. Surgem as fazendas, aldeias, cidades, estados e impérios; sempre pela grilagem da terra e assassinato de pessoas.
Com a propriedade privada da terra, os meios de produção também passam a estar nas mãos de poucos. A ''lei do cão'' está instituída e é a que vigora até hoje. ''Matar ou morrer, invadir ou ser invadido, se expandir a qualquer preço. A guerra passa a ser rotina como até os dias de hoje''. Da sociedade patriarcal passa-se para a escravista e no século XIX, com a revolução industrial, temos a sociedade de classes.


