O acidente foi feio. Um cruzamento, um sinal vermelho, dois carros, uma vítima em estado grave. O Siate foi eficiente no atendimento. Encaminhou o acidentado para o hospital, onde foi internado no 7º andar, com fratura exposta na perna, um pequeno traumatismo craniano e várias escoriações. A equipe de enfermagem estava preparada. Instalou a vítima no quarto 750. Hospital lotado.
Soro, injeções, remédios para acalmar e aliviar a dor. Depois de uma noite tranquila, de manhã, às 7 horas, chega o primeiro turno de enfermeiros. Dividem os quartos e dois a dois vão dando banho nos pacientes e trocando os lençóis das camas. Fazem isso todos os dias e nem ligam mais para a cena deprimente dos nus doentes, na sua maioria idosos.
De quatro em quatro horas, novamente em duplas, vão de quarto em quarto para medir a pressão, temperatura e os batimentos cardíacos. Durante esse intervalo, atendem os médicos, cumprem a prescrição, fazem curativos, correm atrás das campainhas e transportam pacientes para exames e cirurgias.
Nova troca de turno. O calor da tarde faz alguns pacientes se levantarem. O corredor se transforma em uma pista de recuperação. A rotina é a mesma da turma da manhã. Pressão, temperatura, soro, remédio. Escutam reclamações dos acompanhantes sobre a demora no atendimento, o soro que não está pingando, a falta de lençóis limpos e a sujeira no banheiro. Também não escapam das broncas dos médicos e da chefia.
Chega a noite e há nova troca de turno – o último. Checam os prontuários e conferem as obrigações deixadas pelos amigos da tarde. A rotina prossegue com tomadas de pressão, temperatura e a aplicação de remédios e injeções. Atendem aos gritos de dor de uns e aos chamados de outros. De repente, uma urgência no quarto 748 movimenta os corredores. Um paciente tem um ataque cardíaco e a equipe médica é acionada. Tentam salvar a vida de mais um. Enfermeiros a postos dão apoio aos médicos. Tudo em vão. Sai um, entra outro. O tempo é o necessário somente para a limpeza dos quartos.
Amanhece o dia e estão cansados, prontos para ir embora. Um pouco de descanso e a luta continua. Ganham salários baixos, às vezes atrasados, e percebem que o FGTS não está sendo depositado há anos. Em vez de dormir, estudam ou até trabalham em outro hospital ou clínica. Não são heróis, mas ajudam a salvar vidas. São eles, os enfermeiros.

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