Enfermeiras querem realizar partos
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terça-feira, 24 de junho de 1997
Antônio França Foz do Iguaçu 
Arquivo FolhaOs 50 mil enfermeiros com nível superior que atuam no Brasil poderão assumir as responsabilidades dos exames pré-natal e partos normais realizados no sistema público de saúde e desafogar o trabalho de médicos obstetras, que passariam a se dedicar exclusivamente aos casos em que há risco de vida. A intenção da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEN) é agilizar o serviço, humanizar o parto e acabar com o tratamento dispensado na gravidez, considerada uma doença, ao invés de tratá-la como um processo fisiológico natural.
No programa de humanização, a ABEN pretende reverter o quadro negativo da mortalidade materna. Atualmente, o Ministério da Saúde autoriza que, das seis consultas necessárias durante o pré-natal, quatro sejam feitas por enfermeiras. Segundo dados do ministério, de cada 100 mil bebês nascidos vivos no Brasil, 134,7 mães morrem.
De acordo com a presidente da Associação Brasileira de Enfermagem, com sede em Foz do Iguaçu, Maria Goretti de Azevedo, será elaborado um programa estratégico de fortalecimento da enfermagem obstétrica, que será colocado em prática ainda neste ano. O programa será lançado em agosto com o aval do ministro da Saúde, Carlos Cézar Albuquerque.
Com a exigência da ABEN, as faculdades de enfermagem passarão a oferecer especialização em obstetricia e os enfermeiros já formados passarão a chefiar as equipes de assistência à parturiente. Infelizmente, institucionalizou-se o parto, acabando com a figura das parteiras, mas não se resolveu o problema da mortalidade maternidade, afirma Maria Goretti.
A presidente da ABEN não acredita que a transferência da responsabilidade do parto encontre barreiras na classe médica e questiona: Se bombeiros, policiais e vizinhos de parturientes fazem partos, por que profissionais da saúde não poderão atender? Ela afirma que a presença da enfermeira pode acabar com a frieza hospitalar e quebrar o gelo durante o parto.
Ney de SouzaEspecializaçãoMaria Goretti Azevedo, presidente da ABEN: programa será colocado em prática ainda neste ano; de cada 100 mil bebês nascidos vivos no Brasil, 134,7 mães morrem
Diagnóstico feito pela Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetricia (Febrasgo) aponta que os médicos não querem fazer partos normais. Os motivos alegados pelos profissionais é a falta de tempo e o valor pago pelo sistema público.
Maria Goretti diz que a transferência de responsabilidades no parto não significa uma desqualificação no serviço. Segundo ela, boa parte dos partos realizados no Brasil são feitos por atendentes ou axiliares de enfermagem, que não têm nenhuma formação técnica.
No Brasil existem 60 mil enfermeiros com nível superior, 50 mil técnicos, 250 mil auxiliares e 300 mil atendentes. Estão delegando responsabilidades de partos para profissionais não capacitados. A culpa não é dos auxiliares ou atendentes, mas do sistema de saúde, acredita.
Apesar de estar otimista a representante dos enfermeiros admite que é difícil a humanizacão no parto com precisão, e diz que a sociedade brasileira transformou a saúde em mercadoria e isso pode emperrar. Um dos grandes problemas de saúde é o sistema de pagamentos por prestação de serviços, que é perverso e induz produtividade sem qualidade, além de desconsiderar a humanização, afirma
Segundo estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS), a gravidez - apesar de não ser uma doença - mata mais que muitas enfermidades. A morte de mulheres em idade fértil por causas ligadas à gravidez e ao parto, em sua maioria, pode ser evitada. No entanto, a OMS estima que aproximadamente 500 mil mulheres morrem todos os anos por complicações ligadas à gravidez. O que mais chama a atenção é que 99% das ocorrências de morte ocorrem em países desenvolvidos e onde o parto é institucionalizado.
Segundo um documento da OMS, na América Latina, a mortalidade materna se apresenta como um grave problema social. Nesta região, morrem cerca de 30 mil mulheres. Os dados da OMS apontam que 98% dessas mortes não ocorreriam se houvesse atenção à saúde, ou seja, é possível evitar cerca de 29 mil mortes por ano.
No Brasil, não se conhece o número real da morte materna. Porém, estima-se que ocorram cerca de 5 mil óbitos por ano. A região campeã de mortalidade materna é o Sudeste, com cerca de 1,7 mil ao ano. O Sul é o quarto colocado, com cerca de 440 mortes por ano.


