Silvana Leão
De Londrina
Quem tem criança em casa costuma ter sempre à mão o kit tradicional de primeiros-socorros: água oxigenada, mercúrio cromo, antissépticos e pozinhos de ação secante, entre outros produtos utilizados há décadas para curativos caseiros. Mal sabem as mães, porém, que na tentativa de ajudar na recuperação do filhos estão, na verdade, retardando o processo de cicatrização e tornando o incidente ainda mais traumatizante.
A enfermeira paulistana Maria da Glória Marcondes, especialista em cuidados com a pele da ConvaTec, divisão da Bristol-Myers Squibb Company, esteve em Londrina anteontem para dar palestra a profissionais da saúde sobre atualização no tratamento de feridas, no Hospital Evangélico, e derrubou alguns mitos sobre o assunto. Maria da Glória defende as técnicas de cura úmida, adotadas há muito tempo por vários países desenvolvidos. Segundo ela, os profissionais destes países nem discutem mais os benefícios do tratamento úmido, que começou a ser pesquisado no início da década de 60.
‘‘Uma ferida nunca deve permanecer seca. Os produtos utilizados para este fim devem ser evitados’’, afirma a enfermeira. É fácil entender por quê: o meio fisiológico é úmido, e para facilitar a recuperação e garantir a manutenção do metabolismo, esta umidade deve ser mantida. Portanto, a preocupação que muitos de nós temos em estimular a formação de crosta sobre a lesão é infundada. ‘‘A crosta é tecido morto, formado por resto de célula ou coágulo de sangue desidratado, que retarda o processo de cicatrização.’’
Maria da Glória explica que, enquanto tiver tecido morto, não tem como um tecido novo ser formado. Por isso, em vez dos tradicionais curativos com gase seca, ela recomenda os curativos impermeáveis aderentes, que podem ser encontrados em casas cirúrgicas ou boas farmácias dos grandes centros. Na falta deste tipo de curativo, a gase pode até ser utilizada, mas pelo menos a parte que fica em contato com a pele deve ser umedecida.
Outro cuidado especial é na hora de trocar a gaze. ‘‘Ela deve ser retirada preferencialmente na hora do banho, molhando bastante o local para evitar o trauma da troca’’, ensina. De acordo com a especialista, a gase seca geralmente gruda no ferimento e, no momento da retirada, sai junto um sangramento que é na verdade tecido recém-formado, fundamental para a cicatrização.
Entre os produtos que em nada ajudam ou até atrapalham a cura de um ferimento estão os antissépticos e água oxigenada. Os primeiros, segundo a enfermeira, foram desenvolvidos para a limpeza de pele íntegra. Nas lesões eles são inativados ou têm ação tóxica para as células que estão se formando. A água oxigenada, ao produzir espuma sobre a lesão, não está matando bactérias, como se imagina. O produto, naquele momento, está sendo inativado.
Maria da Glória recomenda o uso da água oxigenada apenas para limpeza (como sangue) de áreas próximas ao ferimento. ‘‘Existe desde 1982 uma portaria do Ministério da Saúde que proíbe o uso de mercúrio e água oxigenada no tratamento de feridas’’, lembra.

O que ter à mão em casos de ferimentos:
-Curativos impermeáveis aderentes
-Soro fisiológico para lavar o ferimento, caso não haja água limpa no local
-Gel em vez de pomadas
-Gase para limpeza ao redor do ferimento
-Ataduras e fita-crepe
Fonte: Enfermeira Maria da Glória Marcondes

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