Tem gente que não sai de casa sem ler o horóscopo. Outros consultam cartomantes na esperança de saber o futuro ou para tomar decisões. Há ainda os que rezam e oram esperando alguma inspiração ou intervenção divina. Por mais que o indivíduo seja livre para acreditar no que mais lhe conforta, o que muitos ainda não se deram conta é de que determinadas situações não são fruto da sorte, acaso ou destino, mas especificamente na capacidade de atuação de cada um.
Sem ter qualquer relação com a astrologia, religião, vidência ou sobrenatural, uma técnica milenar - cuja origem não se sabe ao certo, mas há indícios de sua prática antes mesmo de Cristo - que teve mais repercussão nas últimas décadas, tem auxiliado muitas pessoas na sua descoberta interior. Trata-se do eneagrama, uma classificação de tipos humanos baseada em características de personalidade, que vem possibilitando pessoas comuns a se beneficiarem do autoconhecimento.
Segundo a psicóloga Aparecida Carvalho de Andrade, que promove oficinas de eneagrama, ''enea'' significa nove e ''grama'', medida. ''Ou seja, nove medidas de personalidade, nove padrões centrais que sustentam o comportamento. Dentro dessa tipologia existem designações e escolheu-se falar de nove para não rotular as pessoas. Contudo, o importante não é o nome que se dá, mas o movimento energético que a pessoa tem. O eneagrama é mais do que uma forma de tipificação, é uma ferramenta que oferece inúmeras possibilidades de crescimento e aperfeiçoamento pessoal. Nada tem que ver com predição.''
Mais do que um caminho de autoconhecimento, o eneagrama ajuda a pessoa a desenvolver suas potencialidades e aprender a lidar com seus pontos fracos. ''O primeiro passo é descobrir qual a força predominante e a partir daí, descobrir as energias adjacentes que ajudam a compulsão ou a redenção do próprio tipo. Isto significa dizer que o eneagrama auxilia que as pessoas conheçam o eixo de sua força, na qual também está o eixo de suas debilidades e fraquezas. Uma pessoa nunca é mais de um tipo, mas pode sofrer interferências diretas de outros números.''
Tal efervescência pela procura da técnica, de acordo com ela, resume-se pela resposta de saber quem somos na essência. ''É uma busca constante da humanidade. Não é de hoje que tentamos resolver questões internas, entender comportamentos e sentimentos ou saber porque tomamos determinadas atitudes. Por isso, ao descobrir o seu tipo de personalidade no eneagrama, a pessoa passa a se conhecer melhor e até mesmo os outros e, assim, entender o que acontece nos seus relacionamentos, sejam pessoais ou profissionais. Nos conhecendo, somos mais hábeis para perceber o outro e, ao mesmo tempo, não exigir o que ele não está apto a fazer.''
Romper armadilhas
''Não existe uma personalidade melhor que a outra, mas aquela com a qual eu consegui sobreviver. No entanto, há aquelas que a sociedade gratifica mais. Porém, o mais importante é: o segredo do autoconhecimento é deixar o lugar de ter de agradar o outro para poder apreender-se de quais são minhas energias internas, pois só vou poder mudar a mim mesmo. Não posso mudar o outro, apenas entendê-lo melhor'', argumenta Aparecida.
Contudo, na busca pela sobrevivência, podemos cair em armadilhas, como define ela. ''Eu tenho de saber que na busca da minha verdade mais profunda preciso romper com as armadilhas, as máscaras, e buscar aquilo que é mais genuíno em mim. Muitas vezes, as pessoas fazem coisas para sustentar uma imagem, mas não é isso que elas realmente são e, por este motivo, é preciso destituir-se desse lugar, dessa imagem.''
Segundo a psicóloga, o trabalho de mudança vai depender de cada pessoa, já que não se trata de um processo linear. ''Eu diria que é uma tarefa de toda a vida, até mesmo porque nos perdemos no olhar do outro constantemente. Mas a independência que o autoconhecimento proporciona, faz que a pessoa saia das ataduras do olhar do outro. Você pode fazer um percurso mesmo que seja diferente, mas é aquele que você consegue fazer. Não o que o outro quer que você faça'', observa. ''Se eu sou uma pessoa que foca no perfeccionismo, vou continuar sendo uma pessoa que faz bem as coisas, detalhista, mas o meu enlace com a realidade será diferente, não será para ser aceito pelos demais'', acrescenta ela.

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