Cerca de 30 deficientes auditivos do Paraná e de outros estados aproveitaram ontem, Dia Nacional do Surdo, para se reunir com familiares e amigos e também para discutir seus principais problemas. O encontro da Regional de Catequese de Surdos, promovido pela Igreja Católica, aconteceu durante o último final de semana em uma chácara da zona sul de Londrina. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os deficientes auditivos represetam 2% da população nacional, mais de 500 mil brasileiros.
O padre Delci da Conceição Filho, assessor arquidiocesano da Pastoral dos Surdos, diz que o maior preconceito é que a sociedade não consegue ver o surdo como uma pessoa capaz, um profissional competente como qualquer outro. ''As pessoas não sabem o que é a surdez. Daí a falta de compreensão e a dificuldade na comunicação'', afirma. Para ele, é preciso entender que o surdo tem uma língua, uma identidade e elementos de uma cultura própria.
Elisabete dos Santos, 47 anos, é mãe de André Tiago, 16 anos. Ela conta que aos três meses de gravidez teve catapora e rubéola, o que provocou a surdez do bebê. Desde que soube que o filho nasceria com algum tipo de deficiência, Bete procurou aprender tudo o que pôde sobre o problema para ajudá-lo a se integrar. Ela e outras mães, que trabalharam como voluntárias na cozinha do encontro contaram que a maior dificuldade é a rejeição da sociedade. ''A sociedade ainda tem medo. Muitas vezes as pessoas acreditam que o surdo tem problemas mentais, que é agressivo. A comunicação é a principal dificuldade'', ressalta.
Ela conta que muitas vezes os profissionais que trabalham com os surdos não conhecem a língua brasileira de sinais (libras) e acabam não conseguindo se comunicar com eles. Helaine Cristina Rampazzo Alves, 42 anos, Juliana Aparecida Pereira dos Santos, 24 anos, e Carlos de Oliveira, 37 anos, são surdos e contam que as maiores dificuldades enfrentadas são para ir a escola, trabalhar e a falta de conhecimento da sociedade.
Helaine e Juliana são alunas de pedagogia e dizem que os professores não entendem o surdo. A universidade não tem um tradutor para libras. ''Ninguém se preocupa com a nossa dificuldade. Às vezes não consigo entender as palavras dos textos que os professores dão e preciso perguntar para os amigos'', disse Helaine. O marido dela também é surdo, eles têm dois filhos que são ouvintes. Para ela, a família precisa se comunicar, abrir mais a cabeça para que o surdo não se sinta isolado. Helaine é professora do Instituto Londrinense de Educação para Surdos (ILES) e instrutora de libras para a comunidade.
Para padre Delci, a criação do Conselho Municipal dos Portadores de Necessidades Especiais e a lei que garante a contratação dos portadores é um avanço. ''Melhor seria que não fosse necessário, mas essas ações são válidas para que eles possam ocupar o seu espaço na sociedade.