A Aids não tem rosto, deixando de se esconder atrás de grupos de riscos, como no início dos anos 80. Além de jovens na faixa dos 24 a 35 anos, a doença flerta com os que até bem pouco tempo consideravam estar imunes dentro de suas relações heterossexuais, passando a encabeçar as estatísticas brasileiras sobre a síndrome. As mulheres são as principais vítimas.
Para chegar até essas novas vítimas, a Aids está tomando o rumo do interior do país, onde reside a pobreza e a falta de informações. No I Encontro de Aids e Saúde Mental, que começou ontem e termina hoje, no Universidade Estadual de Londrina, os números da epidemia estão sendo confrontados por uma discussão sobre políticas públicas, exclusão social e sexualidade, entre outros temas. Além dos servidores, professores e estudantes, o encontro também pretende atingir a comunidade. A realização é do Serviço de Bem-Estar à Comunidade (Sebec-UEL), Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids e Secretaria Municipal de Saúde.
Apesar das diversas campanhas, os números da Aids ainda caminham numa progressão. Londrina já registrou 1.340 casos da doença desde 1984, quando o primeiro doente foi notificado à Secretaria Municipal de Saúde. Novecentas e oitenta e três pessoas estão vivas, sendo que 30 são crianças, que contraíram o vírus por contaminação vertical da mãe para o feto ou durante o parto e a amamentação.
Em alguns casos, mães que insistem em relacionamentos com parceiros, onde o medo de não conseguirem se sustentar sozinhas é um aliado da doença, que se une ao constrangimento de não se sentirem à vontade para negociar o uso de preservativo, ''abatendo'' mais uma vítima. ''Hoje não são mais as pessoas que têm condições de fazer viagens internacionais que estão expostas à Aids, mas mulheres pobres do interior do país'', explica Rosângela Alvanhan, coordenadora do Programa Municipal de DST/Aids, da Secretaria Municipal de Saúde.
No front da batalha em um país com dimensões continentais e extensos bolsões de pobreza, um soldado importante é a conscientização, que deserticula os focos de vulnerabilidade ao HIV, o vírus da Aids. A médica Wilza Vilela, doutora em Medicina Preventiva pela Universidade de São Paulo (USP), uma das convidadas para o evento, diz que o preconceito mina a sociedade de diferentes maneiras, deixando as pessoas vulneráveis à epidemia.
Um panorama em que parte da população não tem acesso aos serviços básicos de saúde. ''A Aids foi uma emergência em que se fazia alguma coisa para se brecar a epidemia, entrando aí a militância, mas que ainda tem poucas ações no conjunto da sociedade, que não incorpora na sua agenda, não entrando no cotidiano das pessoas o assunto'', destaca Wilza.
São vulnerabilidades que atacam principalmente as mulheres e que, na opinião de Wilza, para combater esse jogo desigual, deveria haver uma discussão, sem se restringir à sexualidade. A discussão, segundo ela, precisa ir para dentro das universidades, sendo incorporada pelos serviços de saúde. ''O profissional de saúde deve se sentir à vontade para perguntar se a pessoa faz sexo com mulher ou homem. Se afirma que o SUS é universal, mas temos lá pediatria, pré-natal, enfim, somente olha para a reprodução humana nas relações hetero e a maternidade.''

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