ENCONTRO - O dia em que o índio virou irmão do alemão
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
O teto é de lona, o chão é de barro. Não há banheiro e tão pouco água tratada. Ver aqueles que durante muito tempo ''reinaram'' absolutos nas terras vermelhas do Norte do Paraná vivendo em uma situação de quase miséria causa tristeza e reflexão. Acampados em um terreno no Jardim São Fernando, em Rolândia, um grupo de índios Kaingang da reserva Apucaraninha, em Tamarana, é o retrato da decadência que afeta várias nações indígenas.
Depois de anos de intenso contato com o ''homem branco'', eles já não conseguem viver somente na reserva. Passar algumas semanas durante o ano na cidade faz parte da cultura do povo que tem no significado do seu nome ''morador (ingang) do mato (kaa).''
No entanto, mesmo estando tão próximos dos povos urbanos, os índios ainda são desconhecidos da maioria da gente da cidade. Muitas vezes, são vistos apenas como mendigos ou meros vendedores de balaios. Falta comunicação. Como resolver esse problema? A arte foi a solução encontrada por um descendente de alemães de Rolândia.
Depois de visitar o acampamento dos índios, o administrador por formação e educador ambiental por vocação Daniel Steidle resolveu que iria ajudá-los, porém queria fazer algo mais do que simplesmente doar alimentos; queria fazer com que os indígenas conseguissem se comunicar por meio da pintura.
''Aqui nós podemos visualizar a situação do índio nos dias atuais. Em Rolândia, ao contrário de Londrina, eles não têm nem um Centro Cultural para ficar durante o tempo de permanência na cidade. Ofereço a eles a oportunidade de se expressarem com pinturas'', sintetizou.
Munido de sementes da palmeira Juçara, que se transformam em tinta, de cavaletes feitos de bambu e de telas de papel reciclável, Daniel proporcionou aos Kaingang momentos de alegria, recheados de sorrisos e mais sorrisos. A FOLHA acompanhou a experiência de interação.
No início, os índios ficaram tímidos, desconfiados, incomodados com a presença da reportagem. Porém, bastou que o primeiro fizesse um traço sobre o papel para que a descontração tomasse conta do ambiente. A adesão foi total. Homens, mulheres, idosos, jovens e crianças, ninguém ficou de fora. As gargalhadas tomaram conta do acampamento. De repente, até platéia se formou. Quem passava pela rua parava para observar o trabalho dos Kaingang. De vendedores de balaio eles passaram a artistas. ''Achei a pintura deles bonita demais. Eu não consigo fazer isso'', entusiasmou-se o agricultor João Santos.
Com pouco tempo, a tinta de sementes de Juçara tomou conta das telas. Em comum, a presença de pinturas de balaios. A prova da importância que os índios dão ao artesanato.
João Pinchê, 23 anos, pintou um cricanti, que é um chapéu de penas utilizado para a caça. ''É para mostrar a nossa cultura'', justificou. Daniel Marcolino, 15, preferiu desenhar um imponente caminhão com a bandeira do Brasil estampada na carroceria. ''O caminhão desenhei porque acho bonito. A bandeira porque o Brasil é a minha pátria.''
Dessa forma, por meio da arte, ''caras pálidas'' e índios ficaram mais próximos. Viraram amigos, ou melhor irmãos. A prova é a pintura de irmandade que o alemão ganhou do Kaingang Silvio Pereira, 23.


