Giovani Ferreira
De Curitiba
O vigia Osório Benato Miola, 44 anos, usado como ‘‘laranja’’ nas supostas transações milionárias das licitações fraudulentas da Companhia de Urbanização de Londrina (Comurb) e Autarquia Municipal do Ambiente (AMA), mora de favor em uma casa de dois cômodos e as vezes não tem dinheiro nem mesmo para comer. Miola figurou como proprietário das empresas Edificadora Veneto, Venelux e Da Ros, que participaram e venceram concorrências públicas, supostamente ilícitas, para a realização de obras e prestação de serviços em Londrina.
Em entrevista exclusiva à Folha, Miola disse que não recebeu nenhum centavo do dinheiro pago para as empresas vencedoras, e que usaram o nome dele para fazer as falcatruas. Explicou que não sabe direito o que é a Comurb e nem que tipo de obras as empresas que estão em seu nome teriam feito em Londrina. O vigia confirmou que as empresas, na verdade, pertencem a Solano da Ros, com quem ele trabalhou durante cinco anos e também com quem deve ter ficado todo o dinheiro pago pelas obras. Sobre a sua assinatura em alguns contratos, Miola afirma que elas foram falsificadas.
O vigia disse que estava apenas querendo ajudar quando autorizou Solano a transferir as empresas para seu nome. ‘‘Ele contou que estava com problemas na Caixa Econômica e que por causa disso precisaria passar as empresas para meu nome’’. Miola, no entanto, não sabe que tipo de complicações eram essas e muito menos que Solano iria agir de má fé quando lhe pediu ajuda. Como trabalhava em uma das empresas de Solano, Miola lembra que não tinha como negar o pedido.
Com um sotaque típico de descendentes de italianos, o vigia contou ter sido abandonado por Solano depois que o caso Comurb tornou-se público. ‘‘Não vejo o Solano há mais de dois meses’’, disse Miola, lembrando que nem mesmo o acerto de contas dos cinco anos em que trabalhou com o empresário ele recebeu. A edícula onde mora fica anexo a um barracão pertencente a Solano, onde teoricamente funcionava a Da Ros, que segundo Miola, era uma empresa de construção civil. O imóvel fica no bairro São Bráz, em Curitiba.
Miola lamenta a situação e diz que além de ter seu nome envolvido em falcatruas, ainda perdeu seu emprego e teve que passar a fazer ‘‘bicos’’ como pintor, pedreiro e jardineiro para poder sobreviver. Quando a reportagem da Folha visitou a casa de Miola, na manhã da última quinta-feira, verificou que nem luz elétrica existe no local. A Copel interrompeu o fornecimento de luz por falta de pagamento.
Recentemente, ele arrumou um novo emprego como vigia, em uma empresa próxima do local onde mora. Com o primeiro salário que recebeu, Miola conta que separou parte para pagar algumas dívidas que tinha contraído no comércio e o que sobrou fez compras no supermercado para garantir comida para alguns dias. Além do problema com a alimentação, o vigia vive em condições precárias, pois a sua casa de dois cômodos nem banheiro possui.
O Ministério Público de Londrina consegiu apurar que muitas das obras e serviços contratados pela Comurb e pela AMA nem chegaram a ser feitas. Os promotores levantaram ainda que somente em janeiro do ano passado o município pagou R$ 880 mil referentes a contratos de sete licitações, entre os quais estavam processos vencidos pela Edificadora Veneto. No total, o Ministério Público está investigando 200 procedimentos irregulares, que podem chegar a R$ 15 milhões.Osório Miola vive em condições precárias em Curitiba e foi usado por firmas que venceram licitações ‘fraudulentas’ em Londrina
José SuassunaCÔMODOS EMPRESTADOSPor causa do ‘‘escândalo’’, o vigia Osório Miola perdeu o emprego; hoje vive de favores e dos bicos que faz para sobreviverJosé SuassunaTrês empresas de Solano da Ros estiveram no nome do vigia: ajuda

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