Lúcio Flávio Moura
Enviado a Arapongas
O que inspirou a iniciativa, segundo ela, não foi a vitória do vírus sobre seu irmão, que morreu de Aids há dez anos, mas a percepção de que os soropositivos estão vivendo uma nova fase, que a sociedade ainda não conseguiu compreender.
O certo é que Ana Cristina d’Arce Cândido Rummel, empresária de 42 anos, que vive em uma bela, espaçosa e arborizada casa em Arapongas (37 Km a oeste de Londrina), é gente que faz o que o governo não faz.
Desde agosto, está dando oportunidade para ‘‘órfãos’’ do sistema, que sofrem com a Aids ou com o medo de a doença se manifestar, mas que têm disposição para viver e trabalhar. ‘‘Ninguém aqui é um produto condenado, que tem a data de validade no fundo da embalagem’’, comenta, mostrando seu bom humor contagiante.
São nove soropositivos que readquiriram dignidade e auto-estima produzindo duas mil peças por mês, do mais original ao mais prosaico artesanato, vendido aos ‘‘descolados’’ nas lojas de shopping centers pelo Brasil afora.
Algumas destas pessoas que aproveitaram a iniciativa de Cristina para ter uma fonte de renda, antes viviam em casa, deprimidas, com vontade de fazer alguma coisa, mas barradas pelo preconceito. Outras apenas sobreviviam, abandonadas pelas ruas, implorando esmolas, esperando a hora de morrer em um leito de hospital público longe da família.
Hoje quem os vê felizes, fazendo três refeições por dia na imensa mesa da varanda ampla e arejada da casa de Ana Cristina, em clima de família unida, ganhando R$ 150,00 por mês, tem a dimensão do quanto alguém com vontade e condição pode fazer por aqueles que estão mergulhados no desamparo.
‘‘Não faço caridade. Apenas estou dando chance para pessoas normais, que podem ter uma vida independente e produtiva, mas que estavam apavoradas com a idéia de ficarem desempregados até morrer’’, justifica Ana Cristina.
A empresária já ampliou a horta de sua casa para garantir mais verduras e legumes a seus empregados. Também está transferindo a sede do projeto ᖠuma pequena casa vizinha a sua mansão – para um espaço maior, onde também funcionará uma creche para as crianças soropositivos. ‘‘Estamos buscando a autosuficiência para ampliarmos o projeto’’, diz Cristina, como é chamada pelos seus funcionários.
Ela quer diversificar as atividades e dar chance de emprego a outros soropositivos. ‘‘Obtive um resultado fantástico, estou feliz e cheia de planos, mas ainda não quero adiantá–los’’, diz a empresária.

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