Empresa admite falta de pesquisa
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quarta-feira, 14 de janeiro de 1998
Curitiba 
Um dos maiores fabricantes brasileiros de produtos à base de cartilagem de tubarão, a Selac Produtos Marinhos, do Ceará, ainda não recebeu a correspondência da Associação Brasileira de Reumatologia, mas informou que não vai se negar a prestar qualquer esclarecimento sobre o assunto. Um de seus proprietários, o químico José Wilson Alencar, reconhece que ainda não existem estudos científicos sobre o assunto porque custa muito caro e envolve muito tempo.
Enquanto isso, a empresa segue faturando R$ 400 mil por mês e está se transferindo de uma área de 200 metros quadrados, situada no Parque de Desenvolvimento Tecnológico da Universidade Federal do Ceará, para um terreno próprio de 2 mil metros quadrados, com 750 metros quadrados de área construída.
Alencar diz que, mesmo que o Ministério da Saúde proíba a fabricação do produto no País, a empresa não vai enfrentar problemas, pois está autorizada a atuar nos Estados Unidos. Temos tudo pronto junto ao FDA, órgão que controla os remédios e alimentos nos EUA, para transferir a empresa para lá se houver algum problema, avisa. Para o empresário, os médicos estão questionando o uso da cartilagem do tubarão por corporativismo: Eles não querem perder o direito de receitar remédios ao paciente, dispara.
Na opinião de Alencar, o principal motivo de atrito é o fato de a legislação brasileira ser ultrapassada (de 1969), não permitindo que alimentos e derivadoscomo a cartilagem tenham propriedades terapêuticas e medicamentosas. Alencar está aguardando uma definição do Ministério da Saúde desde 1994, e diz que uma brecha na lei permite que esses produtos sejam importados se vierem embalados e com autorização do órgão responsável em fiscalizar no país de origem. Daí a idéia de ir para os EUA se formos impedidos de trabalhar no Brasil, explica.
A Selac, que fabrica atualmente 160 mil cápsulas de cartilagem de tubarão por dia, mostra preocupação em fazer pesquisas científicas para não perder espaço no mercado e provar que o produto não é tóxico. Em conjunto com a Universidade do Ceará, a empresa acompanhou 24 pessoas sadias que receberam seis cápsulas por dia durante um ano e não apresentaram qualquer problema. Outra avaliação, com pacientes com osteoartrite no joelho que ingerem a cartilagem de tubarão, deve estar concluída em um ano.
A preocupação em estar associando a imagem da empresa a produtos produzidos sem embasamento técnico e científico fez outra empresa, a Nutrilatina, abandonar a comercialização de uma linha de 23 produtos à base de cartilagem de tubarão, cálcio de ostras e vitaminas. Segundo o diretor industrial, José Damigo Neto, a diretoria da empresa chegou à conclusão de que não valia a pena trabalhar nesse segmento de mercado especulativo. (G.V.)


