O Calçadão de Londrina faz parte da história da balconista Maria Luísa, de 19 anos, moradora da zona leste. Apesar dele ter sido construído antes dela nascer, a garota cresceu fazendo compras nas grandes lojas de departamento que ali se instalaram. Era uma festa quando a menina, junto com a irmã, vinha de ônibus para o centro, de mãos dadas com a mãe. Geralmente, depois de pagar o carnê de prestação, sempre sobrava um trocado para o sorvete ou o pastel com refrigerante.
Maria Luísa ainda lembra dos primeiros tipos de floreiras, bancos de praça e até dos antigos quiosques. Olhava com certo ciúmes as garotas vestidas com saias justas, camisas discretas e sapato fechado que cruzavam o Calçadão com jeito de secretárias ou bancárias. Cresceu imaginando trabalhar naquele local. Quando resolvia sonhar mais alto, ela se via morando em um dos prédios de apartamentos da Praça Gabriel Martins.
O tempo passou e agora Maria Luísa volta diariamente para o Calçadão, dessa vez para trabalhar em um loja de roupas femininas. Os sonhos deram lugar à rotina. Caminha sem enxergar floreiras, secretárias e edifícios de apartamento. A comerciária chega na loja às 7h45, tem uma hora para um lanche em uma padaria próxima e volta para casa às 18 horas. Para ela, o Calçadão é apenas o centro nervoso da cidade, por onde passam todos os dias bancários, comerciários, advogados, empresários, donas de casa.
Maria Luísa não sonha mais com o Calçadão. Quando à noite segue para o colégio, depois de requentar a mistura que sobrou do almoço, a garota deseja mesmo trabalhar em uma loja de shopping. Usar calça jeans justa e de cintura baixa, combinando com a sandália de salto alto. O que a moça ainda não se deu conta é que até hoje ela nunca esteve no Calçadão em um domingo de sol, quando o cenário muda completamente. Os bancários, vigias, professores, ambulantes, domésticas e artistas de rua cedem o espaço para os moradores dos edifícios, mães, crianças com bicicleta e idosos que ocupam os bancos para conversar.

mockup