Leonardo da Vinci e Bartolomeu de Gusmão sonharam com a possibilidade de vencer os ares com máquinas capazes de voar. Na mitologia grega, Ícaro ganhou os céus com asas engenhosamente construídas a partir de cera e penas de gaivota. O notável brasileiro Alberto Santos Dumont dedicou a vida à construção do equipamento que finalmente levaria os homens a tirarem os pés do chão em um avião.

Assim como essas personalidades históricas, muitas pessoas de espírito aventureiro buscam novas possibilidades quando o assunto é aviação. Mais do que enfrentar o desafio dos ares em equipamentos como ultraleves ou aviões, elas dedicam-se a construir suas próprias aeronaves. Em Londrina e região, estes empreendedores podem ser encontrados no Clube de Aviação Experimental do Paraná (Caec), localizado em Ibiporã (Norte).

É lá que, desde 2007, o advogado Gilberto Pedriali ocupa as horas de folga com a construção de um avião modelo KR2-S. A paixão pelas máquinas voadoras começou na infância. Piloto de um Fox V2, ele construiu as primeiras aeronaves em tamanho reduzido por meio da prática do aeromodelismo e, há dois anos, decidiu utilizar as habilidades aprendidas na construção do próprio avião. ''É uma atividade muito prazerosa'', avalia ele, que importou o projeto dos Estados Unidos.

Pedriali, assim como outros pilotos da região de Londrina, pratica a aviação experimental, que caracteriza-se tanto pela construção dos próprios aviões como por qualquer modificação feita nas aeronaves pelos proprietários, geralmente com objetivo de melhorar a performance ou adequar ao uso que se pretende dar ao equipamento. A atividade é controlada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

O técnico em eletrônica Luiz Lolata acumula no currículo a construção de quatro aviões. Ligado em aviação desde criança, ainda nos primeiros anos de vida ele já sonhava em ter a própria aeronave. ''Como não tinha condições financeiras, resolvi construir o meu próprio avião e assim economizar a mão de obra'', explica.

O primeiro modelo foi um KR2-S construído em 1996. Depois disso, fez outros dois similares e ainda um Zenith Stol modelo 701. ''Acabei vendendo todos eles. Em aviação, a gente sempre busca um modelo melhor'', diz Lolata, que atualmente voa em um Paulistinha construído nos anos 40. ''É um clássico.''

Sobre o sentimento de voar no próprio avião, ele conta que, no voo inaugural, a primeira preocupação é saber se o equipamento está em ordem. ''Passada a apreensão, é muito gratificante'', relata. Construir e pilotar aviões é um hobby que lhe trouxe muitos amigos e permitiu conhecer vários lugares. ''Para mim, funciona como uma válvula de escape. É uma terapia'', define o piloto.

A vida de aventuras nos ares também atrai o produtor rural Ivo Vicentini, que tirou o brevê ainda jovem por orientação do pai, que queria livrá-lo do serviço militar obrigatório. ''Como tínhamos fazendas em locais distantes, ele também sabia que um dia eu e meus irmãos iríamos precisar pilotar.''

Entusiasmado com a vida nos ares, já comprou quatro aviões nos Estados Unidos e trouxe-os para o Brasil ele mesmo pilotando. ''A visão das ilhas do Caribe e da Amazônia é inesquecível'', conta.

Com 40 anos de experiência em voos, Vicentini embarcou há dois anos em uma nova aventura: a construção do próprio avião, o popular KR2-S. ''É um avião experimental que pode atingir 250 quilômetros por hora.''. Segundo ele, um avião experimental feito pelo próprio dono custa metade do preço de um modelo industrializado.

''Estou colocando alguns anos de dedicação, é como se fosse um filho'', compara o produtor rural, para quem o KR2-S construído em um barracão na Zona Norte de Londrina será melhor que qualquer outro feito em fábricas. ''Mandei fazer a maioria das peças e estou acompanhando cada detalhe. Será muito seguro.''

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