Ednelson Alves
De Londrina
Especial para a Folha
Depois de mais de 15 anos nos Estados Unidos, o proprietário do Restaurante Camila‘s em Miami e Orlando, Manuel Briote, vai voltar com a família para o Brasil. ‘‘É hora dos meus filhos saberem o que é primo, tio, avó, avô e ter mais relacionamento em família’’, justifica. Após conhecer e pesquisar diversas cidades, principalmente do interior de São Paulo, Manuel escolheu Londrina para investir e morar.
Natural da aldeia de Vila Seca, no norte de Portugal, com 13 anos ele teve que vir para o Brasil. ‘‘Portugal estava em guerra na África. Meu pai não queria que a gente crescesse ali e fosse para o exército. Ele me mandou morar com um tio em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Em 76, meu tio retornou para Portugal e eu fiquei sozinho em São Paulo’’. Como enfrentou problemas com sua empresa, em 1984 ele foi para os Estados Unidos. Começou lavando pratos e hoje é proprietário dos dois maiores restaurantes brasileiros da Flórida.
Em apenas um dia, na temporada do ano passado, ele vendeu 6 mil refeições em Miami e Orlando. Em entrevista à Folha, Manuel conta sua trajetória e explica por que decidiu trocar os EUA por Londrina.
Folha O que motivou sua saída do Brasil?
Manuel Briote Aprendi com meu tio a trabalhar com bar e restaurante. Mas também apostei no Brasil em imobiliária e empresa de materiais de construção. Como era ainda menino, sem experiêcia na área, eu quebrei. Era o tempo do Delfim Neto. Não tinha profissão, nem estudo, e ocorreram naquela época as grandes greves dos metalúrgicos que paravam o ABC paulista por semanas, o que era um absurdo. Resolvi sair do Brasil. Havia acabado de me casar e não tinha nenhuma perspectiva. Consegui o visto e em fevereiro de 84 fui embora para Miami (Flórida).
Folha Como foi o começo nos Estados Unidos?
Briote Comecei lavando pratos. Fiquei em Miami dois meses, passei por uma cirurgia e fui para Nova York, Boston e daí para Atlantic City onde morei até dezembro de 84. Paguei minhas dívidas e pude receber minha esposa. Nos encontramos em Nova York. Estava um frio danado e ela não se adaptou, aí voltei para a Flórida. Fiquei cinco anos em Fort Lauderdale (35 km ao norte de Miami). Como já falava um pouco de inglês, comecei a limpar mesa em restaurante americano. Também trabalhei no hotel Holiday Inn. Em 90 eu já estava com a minha situação equilibrada. Minha vontade era voltar para o Brasil e montar alguma coisa. Mas um amigo, que era gerente da Monark e hoje é dono de uma agência de viagem, me aconselhou a abrir um negócio em Miami. Havia alguns restaurantes brasileiros, mas percebi que durante a temporada as filas eram enormes. Então em 91 eu abri o restaurante em Miami, porém com uma grande novidade: o self-service. Os grupos de turistas ficavam satisfeitos com a rapidez do atendimento e até pediram para eu abrir o Camila‘s de Orlando. Foi o que eu fiz no final de 93.
Folha O que mudou no turista brasileiro que visitava Miami em 91 e os que visitam atualmente?
Briote A diferença é que naquela época o brasileiro comprava muito mais. Hoje não compensa comprar quase nada, principalmente com a desvalorização do real. Hoje é só turismo. Os produtos são lançados quase que simultaneamente.
Folha Qual a análise que você faz da situação do imigrante brasileiro nesses 15 anos de América?
Briote Nem me lembro quantos dentistas, advogados e outros profissionais formados já trabalharam no restaurante. Nos Estados Unidos não basta ter o diploma de formação do país de origem. É preciso ter papel (documento) e outros meios para trabalhar legalmente. Muitos que foram iludidos com essa conversa de Primeiro Mundo se decepcionaram. O salário médio é de US$ 300 por semana. Como uma família vai viver com US$ 1.200? O custo de vida é muito alto, principalmente o aluguel. E nada é de graça. Nos Estados Unidos o trabalho é por hora, tempo é dinheiro e todos correm atrás do dólar, sem ter tempo para a vida. Sábado, domingo, Natal ou Ano Novo, em termos de trabalho, é a mesma coisa. É verdade que os meios de compra são muito mais facilitados, através do crédito e do próprio consumismo do americano.
Folha As pesquisas mostram que imigrantes de todas as partes do mundo gostariam de morar nos EUA. O senhor, mesmo tendo todas as condições, está voltando para o Brasil. O que motiva essa decisão?
Briote Como bom português sempre fui imigrante. Em qualquer parte do mundo eu vivo. A minha decisão é pelos meus filhos. Eles têm que saber o que é primo, tio, avó, avô. Eles têm que sentir o calor humano da família. Queira ou não o americano é um povo frio. As pessoas vivem em função do dólar. Eu quero também que as minhas crianças aprendam a ler e escrever em português. Quando os meus filhos crescerem e estiverem com seus 18 ou 19 anos, eles é que deverão decidir sobre o futuro deles. Mas vamos dar a eles essa base de família que é fundamental.
Folha Mas o seu trabalho foi compensado nos EUA onde você construiu um bom patrimônio, certo?
Briote Sem dúvida, agradeço a Deus, mas isso foi resultado de muito trabalho. A minha esposa tem uma participação muito grande nessa luta. Não vou me desfazer de nada, por enquanto. Continuarei indo lá para acompanhar os meus negócios. Mas agora quero desfrutar um pouco a família. Tenho trabalhado anos seguidos de dia, de noite, sábado e domingo sem descanso. Quero desligar o despertador e poder curtir um pouco a esposa e os filhos.
Folha Por que o senhor decidiu investir e morar em Londrina?
Briote Como sempre pensei em trazer minha família para o Brasil, tinha que investir aqui em alguma cidade. Só que, de onde eu saí, o ABC paulista, era impossível voltar porque perdeu a qualidade de vida. Eu pensei então em ir para o interior de São Paulo. Pesquisei algumas cidades. Um cunhado de Londrina insistiu que eu conhecesse melhor a cidade. Adorei Londrina. Comprei um terreno e construí o Camila‘s Tower. Também estou construindo uma casa e espero ter aqui uma vida tranquila com minha família.Empresários como Manuel Briote deixam os EUA, onde mantêm negócios bem sucedidos, e voltam para o Brasil
DivulgaçãoRETORNO OPORTUNOO português Manuel Briote já morou no Brasil, está há 15 anos nos Estados Unidos e prepara o retorno da família: ‘‘É hora dos meus filhos saberem o que é primo, tio, avó, avô e ter mais relacionamento em família’’

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