Emancipação confunde tribo
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domingo, 23 de novembro de 1997
Alexandre Sanches 
Londrina
Arquivo FolhaOrdem judicialOs caingangue da reserva Apucaraninha farão um plebiscito para decidir entre Tamarana e LondrinaEnquanto índios das reservas Barão de Antonina e Pinhalzinho brigam pelo direito à terra e tentam retirar as famílias de ex-posseiros das áreas, os caingangue da reserva Apucaraninha, em Tamarana (70 km ao sul de Londrina) lutam pelo direito de pertencer ao município de Londrina. Desde que Tamarana iniciou o processo de emancipação em 95, os índios pedem para que a reserva continue pertencendo a Londrina, de onde recebiam atendimento médico e social, com o argumento de que perdem muitos dos benefícios com Tamarana.
No início de 96 o problema parecia estar solucionado com a aprovação de lei estadual de autoria do deputado Florisvaldo Fier (PT), concedendo aos índios o direito de continuarem ligados a Londrina. Em agosto, o Tribunal de Justiça concedeu liminar à Assembléia Legislativa deixando a área em Tamarana. A liminar foi uma resposta à Ação Direta de Inconstitucionalidade, impetrada pelo deputado José Maria Ferreira (PSDB), por não ter sido realizado um plebiscito, exigido por lei, antes da reserva ser repassada a Londrina.
Em outubro, a Assembléia Legislativa aprovou projeto de lei que autoriza a realização de plebiscito na reserva para decidir a qual município eles devem pertencer. O Tribunal Regional Eleitoral deve marcar ainda este ano a data do plebiscito.
Independente dos pareceres jurídicos, os caingangue têm se beneficiado dos dois municípios que mostram interesse real no Salto Apucaraninha como ponto turístico. As duas prefeituras não escondem os projetos para explorar o turismo ecológico no local. Por este motivo, procurando conquistar a simpatia e os votos dos índios, as prefeituras encaminham médicos à reserva e garanetm leitos em hospitais.
A prefeitura de Tamarana garante que os índios utilizam o hospital local e os serviços municipais, e por isso devem pertencer ao município. Por outro lado, a prefeitura de Londrina ainda mantém os programas que atendiam os índios antes mesmo da emancipação de Tamarana. Um outro alvo de disputa são os R$ 12 mil mensais em ICMS ecológico, repassados aos municípios com reservas indígenas.
Apucaraninha tem 5.574 hectares de área e é formada por uma mata nativa - onde os índios praticam a caça -, pelo Salto Apucaraninha e a sede, onde ficam as casas da maioria das 180 famílias (cerca de 950 pessoas). Esta é a maior e mais populosa reserva indígena do Norte do Estado. Ela se orgulha de ser uma das poucas da região que ainda mantém a língua e a cultura indígena e a que possui menos misturas étnicas.
Os homens caingangue trabalham no plantio das lavouras, enquanto as mulheres cuidam dos afazeres domésticos, dos filhos e da confecção de artesanato, que é vendido na cidade. A vida na reserva segue uma rotina comum, com jogos de futebol, televisão e bailes no salão comunitário. Poucas famílias ainda moram em casas de sapé. A maioria tem casas de alvenaria com água e luz elétrica.
A escola possui dois professores brancos e oito índios, e as aulas são ministradas em português e caingangue. A comunidade mantém as tradições, principalmente a língua caingangue.


