6 horas - Em pleno Centro da cidade e ao lado de vários prédios residenciais, taxistas acordam aos sobressaltos os moradores da vizinhança, com rojões utilizados diariamente para espantar as pombas que teimam em sujar seus carros;
9 horas - A loja de roupas é aberta ao som do locutor que, de microfone em punho, abusa dos decibéis para tentar atrair a atenção dos consumidores em potencial que já caminham pelas calçadas;
10 horas - Na periferia, começa a guerra dos carros e motos equipados com alto-falantes contratados pelos donos de supermercados para anunciar as ofertas do dia;
18 horas - Irritado com a lentidão do trânsito, o motorista impaciente resolve aliviar o estresse apertando com vontade a buzina do carro, ignorando que está ao lado de um hospital;
23h30 - Em frente a um bar localizado em zona residencial, um garoto resolve mostrar aos presentes a potência do som instalado em seu carro, ignorando que todos têm direito ao descanso e ao sossego;
4 horas - O grupo de adolescentes que volta de mais uma balada resolve ''zoar'' pelas ruas, depredando telefones públicos, quebrando garrafas e gritando muito. Para aumentar a diversão, um deles resolve dar alguns tiros para o alto;
Esta espécie de diário da cidade traz apenas algumas das situações vividas constantemente pelos londrinenses. São demonstrações de desrespeito às leis e descaso com os outros, que tornam a cidade cada dia mais barulhenta e dificultam o convívio entre os seus habitantes. ''Parece que as pessoas pararam de se preocupar umas com as outras'', define a professora aposentada Anavaly Pellegrini.
A família de Anavaly acompanhou a transformação de uma praça tranquila em Calçadão, que por sua vez se tornou uma espécie de reduto de megafones e caixas de som. ''Compramos o apartamento na Avenida Paraná há mais de 30 anos, quando à nossa frente tínhamos uma praça sossegada. Agora, todo tipo de manifestação se concentra aqui.''
O sossego de outros tempos também já não acompanha a dona-de-casa Nilce Mariano Martins, moradora do Conjunto Violin (Zona Norte). Ela mora na Rua Coleirinha paralela da Avenida Saul Elkind há 24 anos, e conta que o barulho aumentou muito nos últimos anos, principalmente aos domingos à tarde, quando motoqueiros se reúnem na avenida e os fiéis da igreja ao lado usam até bateria. ''Tem hora que tenho que fechar toda a casa para ouvir a TV ou falar ao telefone.'' Ela já pensou até em vender o imóvel e mudar-se para outro local.
Perto da casa de dona Nilce, outro morador sofre com o barulho. O funcionário público Daniel Almeida perdeu a conta de quantas noites mal-dormidas enfrentou por causa de um bar ao lado da casa da família. ''Já sofremos muito aqui com o som alto. Quando os meninos (hoje com dois anos e meio) eram bebês, foi um sufoco.''
As várias denúncias feitas à prefeitura, segundo ele, deram pouco resultado. ''Não existe uma fiscalização constante. Fizemos até um abaixo-assinado e procuramos o Ministério Público. Ultimamente, só tem tido música ao vivo nos finais de semana e feriado.'' Almeida conta que chegou a ser ameaçado por causa das reclamações. ''Eu e minha esposa pretendemos mudar daqui, porque tememos pelas crianças''.
O gerente do Setor de Fiscalização de Alvarás da prefeitura, Nicolsen Barros, diz que os fiscais foram diversas vezes ao local e não constataram nada. ''Todos os processos foram respondidos, com relatórios da fiscalização.'' Segundo Barros, o município conta com uma equipe de quatro fiscais que trabalham nos finais de semana à noite e eventualmente durante a semana. ''Pedimos que as reclamações sejam protocoladas por escrito, porque possibilita um controle melhor da nossa parte e facilita a cobrança de providências.''

Serviço: O plantão de fiscalização da Secretaria de Fazenda pode ser acionado pelo celular 9992-0660.

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