O espetáculo vai começar em 30 minutos. A noite está gelada. Londrina enfrenta uma das suas poucas semanas anuais de frio. No pequeno trailer, a trapezista argentina, filha de pai boliviano e mãe colombiana, capricha na maquiagem. Caroline Bascope, 22 anos, nascida e criada ao redor do picadeiro, já rodou o Brasil, a América Latina, pulando de cidade em cidade, de colégio em colégio.
Termina a maquiagem, o aquecimento e o locutor de voz grave anuncia a atração. Junto do irmão Cristian, 24, ela é içada a uma altura de aproximadamente 10 metros. Não há rede de proteção. Começa o número. Em um dos momentos máximos, Cristian está de cabeça para baixo, preso ao trapézio pelos pés e segura a irmã com só uma das mãos. Equilíbrio e força. Eles descem e a plateia, em torno de 150 pessoas, aplaude bastante. Dali a pouco os dois voltarão à cena. O rapaz no globo da morte. A moça em outra atração de trapézio.
As apresentações são diárias. Os treinos também. A disciplina é de atleta. As baladas raríssimas. Mesmo assim, nenhum dos dois pensa em sair do circo. ''O apaluso do público recompensa qualquer sacrifício'', explica Cristian. ''O circo é tudo para mim'', complementa Caroline. Ambos aprenderam a arte com os pais. José, o patriarca, não vai mais ao picadeiro, mas viaja com os filhos. Faz as coreografias, confecciona os figurinos dos filhos, ensaia-os e ensina o que sabe para as crianças de outras famílias circenses. Esmeralda, a matriarca, já não viaja mais, mora na residência fixa da família, em Goiânia (GO).
Assim como Caroline seguiu os passos da mãe, agora ensina as artimanhas para a filha, Natália, 5. Todos os dias a pequena pede à mãe para que a ensine. E vai aprendendo aos poucos. O repórter questiona se não é difícil criar uma criança vivendo no circo. ''Dá muito orgulho ensinar o que sei para a minha filha. A criança que é criada no circo não conhece aquela vida de risco às drogas, ela está protegida. Aqui nunca vimos estas coisas ruins. É um ambiente muito bom'', destaca.
A família Bascope faz parte do circo Maximus, que está em Londrina, em um terreno localizado na Avenida Madre Leônia Milito. Como eles, em cada um dos outros trailers estacionados ao redor da lona, outros clãs. No mundo circense é assim, as trupes geralmente são famílias, que permanecem unidas por longos anos. Os circos, na maioria das vezes, contratam famílias inteiras e não um artista solitário.

mockup