Em discurso, papa condena traficantes
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sábado, 12 de maio de 2007
Adriana Carranca, Jamil Chade e Ricardo Westin<br>Agência Estado 
Aparecida - No momento mais informal e caloroso de sua viagem ao Brasil , o papa Bento XVI encontrou-se com 2.500 dependentes de drogas, deixou-se tocar, abraçar e beijar e criticou duramente os traficantes. O evento foi o único da agenda em que ele tomou contato com alguma obra social. Em seu discurso na manhã de sábado, na sede da Fazenda da Esperança, entidade católica de recuperação de dependentes espalhada por vários países, avisou: esses traficantes terão de dar satisfações a Deus pelo sofrimento causado.
''O Brasil tem uma estatística, das mais relevantes, no que diz respeito à dependência química de drogas e entorpecentes. E a América Latina não fica atrás. Por isso digo aos que comercializam drogas que pensem no mal que estão provocando a uma multidão de jovens e adultos de todos os segmentos da sociedade: Deus vai lhes exigir satisfações'', disse o papa. ''A dignidade humana não pode ser espezinhada dessa maneira.''
E ameaçou: ''O mal provocado recebe a mesma reprovação dada por Jesus aos que escandalizavam os 'pequeninos', os preferidos de Deus.'' O papa referia-se ao Evangelho de São Mateus (18,6), em que Jesus diz ser preferível colocar uma pedra e lançar ao mar aos que fizerem mal às crianças. As 7 mil pessoas presentes ao evento interromperam o discurso para o aplauso mais vigoroso do dia. Bento leu seu discurso em exatos dez minutos. Foi aplaudido 13 vezes, a mais forte delas quando mencionou os traficantes.
Bento XVI chegou à fazenda, em Guaratinguetá, com dez minutos de atraso, às 10h40, e foi recebido pelo público com palmas e gritos chamando seu nome. Foi recepcionado pelo fundador do projeto, frei Hans Stapel, bispos e governadores. Grupos de internos e ex-internos apresentaram espetáculos de dança. Em seguida, cinco dependentes que se trataram na fazenda deram depoimentos.
Num dos raros momentos de quebra de protocolo em sua viagem ao Brasil, o papa andou no meio do público a pedido do frei Hans. No final da cerimônia, que durou duas horas, o frade anunciou que o papa desceria do palco. A multidão foi ao delírio. Máquinas fotográficas foram sacadas e uma aglomeração formou-se diante do palco. O caminho teve de ser aberto por seguranças. Sorridente, o papa caminhou cerca de 50 metros sob o sol quente do meio-dia. Acenou e deixou-se tocar pelas pessoas. Algumas beijavam sua mão. Os 100 metros de ida e volta foram percorridos em dez minutos.
A fala de Bento XVI sobre traficantes surpreendeu os vaticanistas que há anos acompanham as atividades da Santa Sé. Mas a crítica não foi por acaso. O combate às drogas vem ganhando força no Vaticano como um dos pilares das ações sociais da Santa Sé na América Latina. Em uma recente reunião entre a cúpula do Vaticano e os núncios apostólicos nas capitais latino-americanas, em Roma, o narcotráfico foi considerado um dos principais problemas da região. Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, também afirmou há poucos dias na capital italiana que a questão das drogas é ''crítica'' na região. A aceitação do convite feito por Frei Hans para visitar a fazenda enquadrou-se nessa estratégia de transmitir o recado a toda a América Latina de que o problema das drogas deve ser tratado com prioridade pelos governantes.


