Enquanto a maioria dos londrinenses se ocupava com os preparativos para assistir à estréia do Brasil na Copa, um grupo de voluntários dedicava a hora do almoço, ontem, a saciar a fome de brasileiros carentes. O tradicional ''Almoço de Santo Antônio'', oferecido pela Paróquia Nossa Senhora de Lurdes, na Vila Siam (Zona Leste de Londrina), é antes de mais nada um ato cristão, mas não deixa de ser também uma demonstração mais nobre de amor à pátria.
Cerca de 500 pessoas de todas as regiões da cidade participaram do evento, segundo estimativa do presidente do Movimento Cristão Amigos de Santo Antonio, Antônio Diniz de Barros. Com 40 voluntários, o grupo existe desde 1995 e promove ações de cidadania junto a famílias carentes durante o ano todo: entrega medicamentos e cestas básicas, providencia documentos e serve marmitas nas ruas todos os domingos. É a forma encontrada pelos devotos de seguir o exemplo deixado pelo santo português.
''Essa história de que Santo Antônio é casamenteiro é lenda. Ele é o protetor dos pobres. Uma de suas maiores causas foi brigar contra a agiotagem, que piorava a situação dos miseráveis'', esclareceu Barros. Os almoços dedicados ao santo, homenageado no dia 13 de junho, começaram há quatro anos. O de ontem bateu recorde de participação, de acordo com o fiel, graças à coincidência com a data do jogo da seleção brasileira. ''Com o comércio fechado e muita gente dispensada do trabalho, a adesão foi maior'', sublinhou.
A extensa fila dos panelões traçava um painel dos excluídos sociais da segunda maior cidade do Paraná: mendigos carregando sacos de estopa com tudo que possuem na vida; crianças com calçados estourados; famílias inteiras com olhos de fome; indígenas que não se preocupam em manter as tradições alimentares de seus povos, mas apenas em atender ao apelo do estômago.
Mesmo sabendo que para boa parte dos participantes um prato de arroz e feijão já seria uma benção diante da fome a que estão acostumados, os voluntários se preocuparam em servir comida abundante e de qualidade. Foram comprados 200 kg de alcatra e coxão mole para fazer churrasco, 50 kg de arroz e 30 kg de macarrão, complementados com mandioca, salada e refrigerante. Os convidados puderam repetir o prato quantas vezes quiseram. Aos que tinham dificuldade para se locomover, os ''garçons'' serviram na própria mesa.
''É um trabalho muito bonito, inacreditável mesmo'', elogiou o morador de rua Luiz Antunes de Souza, 42 anos. Ele recebeu o convite para a festa quando dormia debaixo da Concha Acústica, no Centro da cidade, um dos redutos de pessoas que não têm para onde ir. Feliz diante de um prato tão raro no seu dia-a-dia, ele só lamentou a falta de ''uma telinha para ver o jogo do Brasil''.
A aposentada Nadir Maria dos Reis da Costa, 63 anos, saiu do Jardim Pindorama (Zona Sul) animada pelo almoço e pela fé por Santo Antônio. ''Já estive muito doente e me curei orando para o santo. Tinha uma imagem dele que quebrou em minha casa, mas a fé permanece a mesma'', contou.
Fé que resiste também ao tempo e não deixa morrer o espírito de Santo Antônio da maneira como é compreendido pelos fiéis nem no dia em que os olhos do Brasil estão voltados para o outro hemisfério. ''Esse almoço demonstra uma presença continuada da ação caridosa de Santo Antônio, que chamou a atenção por seu carinho pelos pobres'', assinalou o padre José Limeira. Ele lembrou que, assim como Jesus, o santo também conseguiu fazer a multiplicação dos pães, no começo do milênio passado. Tantos séculos depois, a multiplicação de sua mensagem também parece um milagre.

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