Londrina - Com mais de três décadas de dedicação ao aleitamento materno, a londrinense Márcia Benevenuto colhe os frutos de um trabalho iniciado quando discente de Enfermagem. Hoje, sua atuação ultrapassa as fronteiras nacionais e atinge países como Cuba, Bolívia, Nicarágua, México e Colômbia.
Aos 57 anos, ela é a representante da região Sul na Comissão Nacional de Banco de Leite Humano até 2015 e tem um aval político para atuar em prol do aleitamento materno, além de um passaporte oficial do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty).
A boa disposição para falar do tema revela os 18 anos em que Márcia está à frente do Banco de Leite Humano (BLH) do Hospital Universitário (HU) e a experiência como professora do departamento de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Criado há 25 anos, o BHL começou tímido como um projeto de extensão formulado por ela e outras três professoras. Com o tempo, se tornou um serviço, ganhou recursos humanos em nível técnico e hoje é referência em todo o Paraná.
"Sou da 4ª turma da UEL e meu interesse sempre foi na área de pediatria. Tive uma professora que já na década de 1970 apresentava de maneira tímida a importância do aleitamento materno. Na prática, eu via que as crianças que eram internadas e tinham graves quadros relativos à diarreia e outras infecções não tinham sido amamentadas ou, se sim, por muito pouco tempo. Foi aí que o aleitamento se tornou uma paixão para mim", justifica tamanha dedicação.
Recentemente, Márcia fez sua 8ª viagem com representantes da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), instituição que fundou o primeiro Banco de Leite Humano no Brasil, em 1943. Se na década de 80 o Brasil mantinha apenas cinco bancos, hoje esse número subiu para 213, elevando o país à maior rede de BHL do mundo.

Prática milenar
Durante duas semanas, Márcia esteve em Santo Domingo, capital da República Dominicana, capacitando cerca de 40 profissionais, entre médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem em relação ao manejo do aleitamento e a parte assistencial às mães, como o próprio aconselhamento.
"Em Santo Domingo, o índice de aleitamento materno exclusivo até os seis meses é de 8%. Como nesse quesito o Brasil tem melhorado cada vez mais, nossa estratégia virou um modelo de exportação para muitos países. Ao longo dos últimos 10 anos, essa prevalência subiu e hoje o índice no país é em torno de 42%. Porém, ainda estamos caminhando para resgatar a prática milenar da amamentação que se perdeu em um momento recente da história", comenta Márcia.
A perda na qual Márcia se refere é sobre o que ela chama de "fase de desmame comerciogênito", nas décadas de 1960 e 70. "Eu mesma presenciei. Os representantes de indústrias tinham acesso livre às gestantes nas maternidades. Eles davam a primeira lata de leite, dizendo que se elas tivessem alguma dificuldade para amamentar poderiam usar o produto. Diante disso, a prática de amamentar era facilmente descartada. Hoje, esta conduta está proibida, mas a luta acontece desde então", completa.

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