EM BUSCA DO CONHECIMENTO - Latim é ferramenta para formação humanística
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terça-feira, 02 de outubro de 2007
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Ele já passou dos 80, mas tem uma vitalidade de dar inveja a qualquer garoto. Pelos corredores da faculdade onde leciona, não consegue andar meia dúzia de passos sem parar para um abraço ou um pouco de conversa com alunos ou colegas professores. A biblioteca da instituição leva o seu nome. Boa parte das turmas de formandos o querem como patrono, até mesmo as de cursos para os quais ele nem dá aula, como Administração.
Esse ilustre senhor é o professor João Francisco Gonsalez, docente do curso de Direito do Instituto Catuaí de Ensino Superior (Ices), de Cambé, que faz do ensino do latim ''uma ferramenta para dar uma formação humanística aos futuros advogados'', como ele mesmo diz.
Apaixonado pelo o que faz, Gonsalez discorda daqueles que consideram o latim como uma língua morta. Para ele, a língua mãe dos idiomas românicos está muito viva, principalmente no cotidiano dos juristas, que usam expressões em latim constantemente em seu trabalho. Habeas Corpus é apenas um exemplo. Por isso, ele ensina com muita satisfação e fica feliz quando vê os alunos ''fritando os neurônios'' para assimilar seus ensinamentos. ''Eles me dizem que é a matéria mais difícil de todas que eles estudam no curso de Direito'', revela.
Interatividade e banners - No entanto, o esforço do professor para ensinar a matéria complicada de maneira interativa e prática faz com que os estudantes se interessem pelas suas aulas e consigam aprender. Gonsalez espalhou pela sala diversos banners com tópicos fundamentais de suas lições e fez ''casinhas'' com as terminações das palavras em latim. ''Faço dinâmicas, eles vão entrando em cada uma dessas casas e aprendendo novas lições. Também utilizo muito o teatro'', explica.
Outra tática do professor é ensinar latim e português de maneira conjugada. ''Se eu der aulas só de latim, os estudantes abandonam o curso na primeira semana. Vejo que a gramática básica, infelizmente, está sendo abortada do ensino médio. O pessoal chega à faculdade sem saber o necessário sobre a língua portuguesa. Então, vou ensinando as duas línguas paralelamente e mostrando as semelhanças e as diferenças entre elas. Faço os alunos analisarem o que escrevem, detectando suas falhas, suas incoerências, suas ambiguidades. Assim, eles melhoram seus textos e vão se preparando para o mundo lá fora, para o futuro, quando serão juristas e vão ter de escrever muito bem.''
Entusiasmo de principiante - Filho de imigrantes espanhóis, Gonsalez é o caçula de nove filhos. Nascido e criado no interior do Estado de São Paulo ele chegou a Londrina em 1987, quando foi aprovado em um concurso da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Aos 54 anos de magistério, diz estar em um momento dos mais felizes de sua vida e cheio de vontade de ensinar. Até parece um principiante na docência. ''O Ices é a única instituição, que eu saiba, que oferece aulas de latim no seu curso de graduação de Direito. Isso é lamentável. Os acadêmicos precisam conhecer bem essa língua, que é a mãe de muitas outras. Por isso, continuarei me dedicando a ensiná-los'', ressalta o professor.
Os alunos, por sua vez, reconhecem a dedicação do mestre. ''Aproveito a oportunidade para dizer o quanto o professor Gonsalez nos ajuda. Desde o primeiro dia do curso ele deixou seu telefone celular à disposição para tirarmos dúvidas quando quisermos e nos recebe em sua casa para aulas extras, sem cobrar nada por isso'', fez questão de relatar o acadêmico Udo Uhlmann.


