Em baixa - Sapateiro é ofício à beira da extinção
Paulo WolfgangCurto e grossoOdinir de Oliveira atende Ivan, filho da professora Suely Deloni: Nossa profissão está acabandoPasse pelas poucas sapatarias que ainda sobrevivem na Cidade. Você não vai encontrar um jovem trabalhando; todos os sapateiros são velhos. Não tem ninguém novo, nenhum moço aprendendo a profissão, como era comum alguns anos atrás. Não há mais substituição da mão-de-obra neste setor. Quando um se aposenta ou morre, ninguém assume o lugar dele. É mais uma sapataria que fecha. Nossa profissão está acabando, as sapatarias estão em extinção. Daqui uns anos, ninguém mais vai levar sapatos para consertar. Primeiro, porque não vai compensar. Segundo, porque não haverá mais sapatarias.
A declaração acima, por mais fria e agourenta que possa parecer, está bastante próxima da realidade e foi dada pelo sapateiro Odinir de Oliveira, 50 anos de idade e 35 de profissão. Casado e pai de duas filhas adolescentes, ele é dono da pequena sapataria que funciona em uma sala da casa de madeira alugada em que mora com a família, no final da avenida Higienópolis (zona sul).
Paulo WolfgangMaldito realAdmir Lázaro Luiz, ex-dono de três sapatarias: A situação piorou de vez nos últimos três anos
Hoje, 37 sapatarias funcionam em Londrina. Segundo dados do setor de expedição de alvarás da Prefeitura, apenas 14 delas existem há mais de dez anos. Este fato, além de deixar claro que o ramo é competitivo e de difícil sobrevivência, pode dar a falsa impressão de que continua crescendo, porque 23 sapatarias são novas e foram abertas de 1987 para cá.
Mas a verdade é que, no final da década de 70 e início da de 80, Londrina, com a metade da população que possui hoje, contava com cerca de 50 sapatarias. E, nos últimos anos, outras dezenas de empresas abriram e faliram por falta de movimento. Esta é a avaliação dos sapateiros que sobreviveram à crise, quase todos carecas ou com cabelos grisalhos, salientes barrigas e algumas décadas de profissão.
Depois de muitos dedos martelados e cortados ao longo de 31 anos como sapateiro, Admir Lázaro Luiz foi diminuindo seu negócio e acabou como sócio de uma pequena sapataria onde trabalha sozinho, em uma sala alugada numa casa de fundos na rua Pernambuco (área central). Naquela que ele chama de época de ouro da profissão, entre 1975 e 83, ele chegou a ser dono de três sapatarias, empregar seis funcionários e a fabricar até 400 pares de calçados por mês.
A situação começou a fracassar com os constantes planos econômicos, com as mudanças de moeda e a chegada dos calçados importados. O resultado foi a queda no preço e na qualidade dos calçados usados pelos brasileiros. Eles são, muitas vezes, tão baratos e tão ruins que não compensam mesmo um conserto, uma meia-sola ou uma reforma geral, explica Admir Luiz, que tem 44 anos de idade, é casado e tem três filhas.
Paulo WolfgangFim da linhaJorge Bittar, 50 anos de profissão: Sapateiros não preparam mão-de-obra para substitui-los no futuro
Na opinião dele - que fechou a última das três sapatarias que possuía sozinho em 88 -, outro problema sentido pelos sapateiros é que os produtos utilizados nos consertos - como couro, cola e lixa - não tiveram os preços diminuídos nos últimos anos, na mesma proporção da queda nos preços dos calçados. A situação piorou de vez nos últimos três anos, depois do Plano Real. Hoje, não compensa mais fabricar sapatos, porque é impossível enfrentar a concorrência dos preços das grandes multinacionais, comenta o sapateiro. Além disso, os fregueses acham o preço do conserto caro e dizem que não vale a pena. Para colocar uma meia-sola tenho que cobrar, no mínimo, R$ 15,00. As pessoas estão comprando o par de sapatos por R$ 10,00. Assim, não compensa mesmo reformar o calçado.
Odinir de Oliveira concorda com a avaliação. A nossa situação vinha piorando há anos, mas antes do Real até que estava razoável. Nos últimos dois anos, a coisa fracassou de vez. Tem muita gente desempregada, e os que estão empregados recebem salários muito baixos. Os calçados são baratos e descartáveis. Não prestam, mas são baratos e podem ser comprados em várias prestações baixas. Quando estragam - o que acontece rapidamente - os donos preferem jogar fora e comprar outros, em vez de mandar para o conserto, afirma Odinir. Ele diz que só continua na profissão porque não teria oportunidade em outro emprego. Todo dia tem trabalho, mas são pequenos servicinhos. Eles não rendem o dinheiro que ganhávamos no passado. Só dá para ir tocando e mantendo o negócio. Aliás, ainda não fechei a sapataria porque ela funciona dentro da nossa residência, o que diminui os custos de manutenção, e a minha mulher, Dirce, ajuda trabalhando como doméstica.
O mineiro Jorge Bittar, 67 anos de idade, é sapateiro há 50 anos. Desde 1972, quando chegou em Londrina, ele tem uma sapataria na galeria dos edifícios que formam o Centro Comercial (área central), onde trabalha sozinho. Ele concorda que o número de sapatarias vem diminuindo ano a ano na Cidade, mas garante que a quantidade de clientes dele não caiu com o tempo. O maior problema é que não tem ninguém aprendendo a nossa profissão. Antigamente, cada sapataria tinha dois, três moços aprendendo, fazendo estágio. Hoje, a fiscalização é muito rigorosa e os impostos são altos. Os sapateiros não preparam a mão-de-obra para substitui-los no futuro. Isso é que vai levar a atividade à extinção.Na década de 70, com a metade da população de hoje, Londrina possuía 50 sapatarias; hoje, são apenas 37. E esse número esconde uma realidade para muitos irreversível: calçados baratos e descartáveis - fabricados aos milhões pelas multinacionais -, as constantes trocas de moeda e o desinteresse dos mais jovens em aprender a profissão vão, em pouco tempo, pôr fim a um ofício secular
Osmani Costa
Londrina





